Congresso internacional: cidades e transporte
Com este título e promovido pelas empresas WRI Brasil e EMBARQ, com o patrocínio de diversas empresas, dentre elas, surpreendentemente a Uber, realizou-se, na Cidade das Artes, este importante conclave nos dias 10 e 11 que passaram.
Ambiente e organização do Primeiro Mundo, com conferencistas de reconhecimento internacional. Conforme ele mesmo declarou, era talvez o milésimo seminário sobre este assunto que comparecia, o nosso melhor urbanista do mundo, Jaime Lerner. Ajudou a abrilhantar este evento, tendo como tema execrar a presença do automóvel e enaltecer o transporte sobre rodas, como o BRT. Por causa deste enfoque, não faltou também o ex-prefeito de Bogotá, Henrique Peñarosa que, ousou citar a frase constitucional de que: “Todos são iguais perante a lei”, para enaltecer o direito de usar o espaço urbano, para circular o pedestre e o ciclista, segundo ele usurpado pelo automóvel. Sem dúvida uma declaração passional, aliás, comum na língua espanhola, haja visto o uso da expressão “sin embargo”, em lugar do nosso, delicado e até tímido: “outrosssim”..
Os temas abordados muito bem escolhidos e muito bem dissertados como Plano de mobilidade urbana; A importância de ter uma visão da cidade; A promoção do desenvolvimento orientado pelo transporte sustentável; O direito a ter uma cidade acessível; O poder das cidades, apenas para citar alguns.
Coube dissertar sobre o último tema o ex-prefeito de Londres, Ken Livingstone, que teve a coragem cívica de implantar o sistema “Congestion charging” na sua cidade e cuja presença fizeram-me ir até lá para ouvi-lo, na esperança, frustrada, de poder ter contato com ele. Afinal, este seu ousado plano inspirou-me a produzir, com as devidas adaptações às nossas deficiências de transporte de massa, o meu URV, Utilização Racionada das Vias, onde também tive a coragem cívica, não acompanhada pelos prefeitos a quem o sugeri, de adaptar o carro de passeio à sua inclusão nos meios de transporte disponíveis, como ele agora o faz, de maneira prejudicial, pelo uso insuportável de somente conduzir o seu condutor. É intolerável a presença de carros de passeio em cerca de 96% do volume do tráfego deste meio de transporte, conduzindo apenas o seu condutor, quando é possível que transporte ao menos mais três passageiros.
Cabe aqui a observação passional de Peñarosa sobre o preceito constitucional mas, não apenas para o pedestre e o ciclista, mas para todos os cidadãos urbanos..
Uma das melhores observações que já ouvi, e não foi em nenhum simpósio nacional, foi esta pérola: “Os governantes devem decidir se fazem obras, ou tomam medidas, para que mais pessoas circulem ou que mais veículos, quaisquer que sejam, o façam”.
É hora, por tudo que me foi dado assistir, num Congresso sério, e muito bem organizado, a observação do autor inglês Chesterton, tantas vezes repetidas por mim: “Não me preocupam os que não vêem a solução, mas os que não enxergam o problema” e, para o que parece eu o enxergue sozinho, baseado no estudo de pesquisas, a ferramenta básica da boa engenharia de tráfego, estou sugerindo à Anfavea que também organize um congresso em defesa da existência do seu produto, o carro de passeio como meio de transporte, adaptando-o para este novo emprego, contribuindo para que mais pessoas circulem, com menos carros de passeio, fruto de sua adaptação com o sistema URV que, inclusive, gera recursos para subsidiar o transporte público sobre pneus.
Será um debate de onde surgirá a luz pelo consenso e convencimento de que não será nunca possível se banir o carro das cidades, dos principais, dos bens de consumo que é, como também jamais lhe propiciaremos espaço viário para circular, só nos resta, racionar o uso das vias, nos momentos de maior sobre carga, ou seja nas horas de “rush”.
Note-se, não me move nenhum interesse pessoal para com as montadoras. Estou apenas, coerente com o patriotismo que me fez escolher, na minha juventude, a vocação militar, na Marinha - o mais belo altar para se cultuar o amor à Pátria, até porque se veste de dourado e de branco - tentando convencer àqueles que detém o poder de decidir, fruto do que aprendi sobre a filosofia da administração do trânsito urbano, infelizmente não ensinada na preparação dos nossos técnicos, quer sejam urbanistas ou engenheiros de tráfego.
