Casa que não tem pão...
Nesta semana que terminou foi publicada na grande mídia uma série de reportagens analisando o de há muito insuportável trânsito nas principais cidades brasileiras. Na sua segunda reportagem optaram por ouvir as opiniões e análises dos economistas. Como recorda o título deste artigo, em casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão. Por que entrevistaram economistas e, até hoje, quando redijo este artigo, não entrevistaram nenhum engenheiro de tráfego, não sei. Mas nas declarações dos economistas, evidentemente não poderiam faltar os dados estatísticos, com seus percentuais (que eles adoram), tecendo paralelos de gastos e incentivos, ou a falta destes últimos, para o transporte público, em comparação com a indústria automobilística.
Publicam os diferentes percentuais de despesas do usuário no uso do carro particular e no uso do transporte público, capciosamente, sem se referirem aos valores absolutos dos dois meios de transporte. Como economistas, deveriam saber da importância para economia nacional da indústria automobilística. Eu, que nada entendo de economia, aprendi, quando tive o privilégio de ir trabalhar no trânsito de São Paulo, junto com a Sondotécnica de Jaime Rotstein, quando ouvimos a sincera e honesta advertência do prefeito Miguel Colassuono, que nos contratara: “Não sou prefeito, estou prefeito. O que sou é economista, da escola de Delfim Neto, e aconselho aos senhores que vão equacionar o trânsito de São Paulo: Não aporrinhem o automóvel, pois a sua indústria é o carro chefe da economia nacional.”
Jamais esqueci esta advertência de quem conhecia a economia, dita como ciência exata. Trabalho, e sou especialista, decano entre meus pares, com a engenharia de tráfego, esta sim ciência exata, embora lide com as reações da pessoa humana inserida num complexo social problemático.
Tive o privilégio de privar da amizade do criador da indústria automobilística nacional, o Almirante Lúcio Meira, com quem almoçava ao menos uma vez por mês, para aprender os seus conceitos filosóficos. Como, por exemplo, sobre a revolução social, criada pela indústria automobilística, cujos efeitos, segundo ele, só foram acompanhados pelo sistema financeiro e o fez no sentido de piorar o seu impacto no trânsito das cidades, na medida em que facilitou, com os seus financiamentos, a compra do seu produto.
Hoje, todos emitem a sua opinião, satisfazendo sua justa vaidade profissional, sem apontar as soluções em curto prazo, para o que entendem de maneira errônea como solução da mobilidade urbana e a necessidade, muito justa, de subsidiar o transporte público.
As diferenças dos percentuais apontados são impressionantes, até para o leigo que sou e, que só me entristecem quando, desde 2004, apresentei às autoridades responsáveis do Rio e de São Paulo, o sistema URV, Utilização Racionada das Vias Urbanas, capaz de não apenas criar a verdadeira mobilidade urbana, que é a da ambulância, e de gerar uma receita capaz de subsidiar, de maneira substancial, o transporte público que, conforme demonstrado pelos economistas, onera insuportavelmente o orçamento do trabalhador.
Enquanto “falta o pão, todos falam e ninguém tem razão” no que diz respeito à solução e ainda, os políticos discursam dizendo que precisamos de uma sociedade mais justa, esquecidos de que o trânsito urbano é, segundo a ONU, o terceiro problema social do mundo.
