Angelina Jolie e a sua dupla mastectomia
Vida longa e feliz é o desejo de todos. No entanto, quando se trata de saber o que nos faz feliz, todos nós tateamos em busca de clareza para podermos decidir qual o melhor passo a dar, para construirmos o caminho da autorrealização. O sorriso de Angelina Jolie diante da imprensa é de estarrecer. Ela comunica sua decisão de se sujeitar a uma dupla mastectomia por causa de uma possibilidade prevista em exames médicos de que algum dano pudesse vir a afetá-la.
Todos se encorajam com a atitude de Jolie, duplamente mutilada pelo discurso científico. Discurso para quê? Para que nos sintamos guiados pelos poderes superiores da Ciência, que irá nos determinar o que fazer de nossas vidas, se a seguirmos com total submissão. Há muito saímos dos desígnios da religião e mesmo das ordens do Estado para nos aventurarmos nos artifícios da Ciência em direção da conquista de uma vida melhor. Liberdade é a chave mestra que nos impulsiona neste sentido. Mas no que se tornou a Ciência?
A Ciência se transformou e nos transformou em monstros. É preciso que se incentive uma visão crítica contra o uso dogmático de regras e metodologias científicas para que salvemos nossas vidas das ofensas que o progresso científico tem nos causado. Orgulhoso de seu domínio sobre a natureza, o homem com a Ciência extermina integridades e valores humanos para os quais não está capacitado para entender. Nas mãos de especialistas, saberes científicos não passam de técnicas utilizadas com objetivos mercantis.
Num mundo no qual o consumismo venceu como modo de vida, a Ciência sem limites acaba oferecendo mais uma derrota que uma vitória para a felicidade humana.
Em artigo publicado no The New York Times, de 14/05/2013, a atriz declara; “Decidi ser proativa e reduzir o risco o máximo que eu podia". E pior, justifica; "Eu me sinto segura de que fiz uma escolha dura (...) para qualquer mulher que esteja lendo isso, espero que isso ajude você a saber que tem opções".
Através do argumento de temor pelo mal, uma verdadeira corrida aos consultórios e laboratórios levará diversas pessoas a mesas de cirurgia para serem trucidadas em nome do reino do silicone e de outras maravilhas comerciais, cometendo um malefício desastroso.
Os próprios mastologistas declaram que o procedimento apresenta riscos de complicações pós-cirúrgicas. E ainda, mesmo com todo apelo para prevenção, haverá efeitos colaterais. Acredito que ela teria se prevenido melhor com um cuidado mais frequente, com exames de seis em seis meses que permitiriam o diagnóstico precoce de algo indesejável.
Talvez a proposta de Baruch Spinosa possa contribuir para liberar a alma humana do domínio científico: “Deus é Natureza”. Sua teoria de imanência considera que não há princípio ou causa externa para o mundo, e que o processo da produção da vida está contida na própria vida.
Spinosa não relaciona liberdade com vontade e, sim, necessidade. Conhecer esta necessidade é, para ele, o segredo de nossa felicidade.
* Rosângela Trolles é jornalista.
