Hegemonia em jogo
A desintegração da ordem mundial inglesa permitiu que os EUA surgissem como a nova nação hegemônica
A desintegração da ordem mundial inglesa, após a Primeira Guerra Mundial, permitiu que os EUA, detentores, em 1910, da maior reserva mundial de ouro, surgissem como a nova nação hegemônica.
A ascensão dos EUA, ao término da conflagração, só foi possível com um capitalismo de corporações, diferente do capitalismo familiar inglês, que obrigava as empresas norte-americanas a passarem por uma grande transformação, isto é, a adotarem uma estrutura organizacional que facilitasse a diversificação de produtos. Em que pesem os percalços de uma superprodução desastrosa e da superveniência da Grande Depressão da década de 1930, os EUA conseguiram sair da crise, através dos altos gastos governamentais com armamentos, durante e após a Segunda Guerra Mundial. O resultado dessa nova política econômica é a institucionalização dos grandes orçamentos militares, mesmo em períodos de paz.
E é a partir dessa base doméstica, com sólido apoio governamental, para a produção em massa, que as empresas norte-americanas tornam-se multinacionais. É a expansão transnacional do capital das corporações norte-americanas, atendendo às demandas interna e externa por equipamento militar e científico avançado.
Com o término da Segunda Guerra Mundial, as multinacionais norte-americanas tornam-se paradigmas organizacionais do modo de produção capitalista, influenciando a vida econômica na Europa Ocidental, através do Plano Marshall, em contraposição à União Soviética.
Derrotado o nazifacismo, em 1945, começa a Guerra Fria, num cenário polarizado entre o capitalismo e o comunismo. Vivia-se, então, o mundo bipolar. Mais tarde, com a derrocada do Estado soviético, em 1989, o mundo passa a ser unipolar, isto é, consolida-se a hegemonia econômica, política e militar norte-americana. É a grande mudança no pós-Guerra Fria. Sua expressão maior no campo ideológico foi a relativização do conceito de soberania nacional. Por aí, tem início a desconstrução dessa categoria importante da Ciência Política, que deixa de ter um significado único e se reatualiza numa perspectiva de submissão aos Estados hegemônicos.
No mundo globalizado de hoje, a soberania nacional é considerada um anacronismo perigoso, devendo ser descartada e substituída pelo discurso dos direitos humanos, tal como estes são entendidos pelos países mais avançados, uma falácia neoliberal exaurida dos direitos sociais que, para se efetivarem, exigem a intervenção do Estado, tudo o que o neoliberalismo não quer. As relações entre os Estados passam a considerar a soberania nacional como um entrave ao processo de globalização, enquanto colocam num patamar elevado a proteção jurídica do que consideram direitos humanos.
Decreta-se, assim, a morte do Estado-nação, último bastião em defesa da racionalização jurídica do poder, o que fortalece o novo ciclo hegemônico, cujo escopo ideológico se funda na autoafirmação do capitalismo, como o único modo de organizar a vida contemporânea, concebível para a humanidade.
Sabemos que não há hegemonia internacional sem um Estado hegemônico, capaz de garantir o bom funcionamento do sistema. Por outro lado, também, sabemos que, com o colapso do bloco soviético, o raio de ação da hegemonia norte-americana estendeu-se, consideravelmente, tornando-se global. A ideologia da globalização serve para encobrir a conquista do mundo pelos Estados Unidos e a imposição dos interesses norte-americanos a todas as nações do globo terrestre. Afirma-se, cada vez mais, a vocação imperial dos EUA. É um equívoco falar em declínio norte-americano. Pelo contrário, assistimos à escalada progressiva e meticulosa do império americano. Um dos objetivos da política externa americana é trabalhar com aqueles que aceitam as regras fundamentais do mercado, se possível de boa vontade, mas, se inevitável, pela imposição bélica.
Militarmente, os EUA afirmam a sua pretensão de ser a única superpotência do mundo, valendo-se de sua supremacia no domínio da informação, com a qual controlam todos os fluxos de informatização mundial. No campo político, a prepotência manifesta-se desta maneira: nada se resolve nas relações internacionais sem a intervenção dos EUA. Contudo, o aspecto mais marcante da superioridade americana reside na conquista dos mercados mundiais. As multinacionais americanas estendem seus tentáculos à Europa e ao Terceiro Mundo, dominando o mercado da informática e da cultura. A cultura norte-americana torna-se a única cultura de massas.
Nestas condições, a ideologia dominante expressa a vontade imperial da cultura do povo norte-americano, o que transforma os demais povos, inclusive os desenvolvidos, em aculturados. Com raízes profundas no modo de vida americano, a ideologia neoliberal é o retrato dos interesses dos Estados Unidos. É ela que legitima a hegemonia americana. Pela primeira vez, o mundo se depara com uma ideologia global e sem competidores, daí falar-se em pensamento único.
Como resistir a essa supremacia, sempre arrogante em suas decisões unilaterais, quando colide com os interesses das nações? As iniciativas de resistência internacional à nova ordem internacional com base em movimentos sociais, quase sempre desarticulados dos governos, manifestações de rua e fóruns de discussões, desgraçadamente, têm se mostrado inócuas, até porque se dão numa atmosfera de influência de uma esquerda revisionista e de uma mídia globalizada. A luta anti-hegemônica, ainda, deve passar, necessariamente, pelos movimentos de libertação nacional, embora, hoje, estes não possam contar com a força do campo soviético. Apesar do cerco diplomático e das tentativas de desestabilização interna, perpetradas pelos agentes do império norte-americano, a Venezuela, neste século 21, foi o primeiro país latino-americano a bancar um projeto de libertação nacional: o movimento bolivariano.
Não é sem razão que Obama se recusa a reconhecer o governo de Nicolás Maduro. A hegemonia americana não pode estar em jogo.
*Thelman Madeira de Souza é médico.
