A cadeira de Ivo

Por Wander Lourenço*

Pelo histórico da Academia Brasileira de Letras, supõe-se que, após a partida do poeta Lêdo Ivo, por tradição do ofício, especula-se à boca miúda que a cadeira de n. 10 se destine ao candidato Antônio Cícero.  Ainda que, entre outros escritores menos lidos, duas concorrentes de expressão se avultem ao postulado de imortalidade – Mary Del Priore e Rosiska Darcy de Oliveira, além do diplomata e escritor João Almino, se os acadêmicos se pautarem pela coerência de substituição, o poeta e filósofo Antônio Cícero será eleito para a vaga desocupada por Lêdo Ivo. Entretanto, o irmão e parceiro da cantora Marina Lima, apesar de sua decantada erudição, sem sombra de dúvida não se posiciona entre os três melhores poetas em reais condições da disputa eleitoral para a ABL. 

Por mérito, maestria e engenho quase secular, caso houvesse disponibilidade de presença física, por unanimidade o lugar vago da cadeira de Ivo deveria ser ocupado por Manoel de Barros, que assumiu o posto de poeta n. 1 da literatura brasileira, após a morte de João Cabral de Melo Neto. Logo a seguir, emparelhando por merecimento de causa, a segunda opção de ingresso à Casa de Machado de Assis, caso desempacasse de sua teimosia crônica, seria o imbatível Ferreira Gullar. Em terceiro plano, salvo engano, o mais habilitado a figurar entre os imortais haveria de ser o tímido e recluso poeta de fina estirpe Armando Freitas Filho. Da geração de Antônio Cícero, e mesmo dos poetas que surgiram no instante subsequente, é fato que poucos se antecipariam ao prélio acadêmico, pois que, neste contexto, creio eu que esteja em questão mais do que o talento literário a sapiência filosófica.

Conquanto Alexei Bueno e Carlito Azevedo sejam relativamente jovens autores mais talentosos e promissores, é provável que os pretensos candidatos se receassem diante do exemplo da eleição de Marco Lucchesi que, embora poeta menor que ensaísta, se prevalecera da incontestável erudição fincada no cristianismo de sua formação intelectual para suceder ao padre Fernando Bastos de Ávila. Destarte, se considerarmos que Lêdo Ivo também fora crítico literário, por concomitância de escritura mais justo seria eleger Silviano Santiago, que ainda se prefigura como ficcionista. Porém, o autor de Em liberdade jamais se postulara, por manifesto ou aceno, à suplência acadêmica de Lêdo Ivo, quiçá em razão de sua pena crítica suplantar o veio ficcional.

Em se tratando de duplicidade em área de atuação, neste caso etimologia e ficção, um excelente candidato seria o catarinense Deonísio da Silva, autor do premiado Avante soldados, para trás, que vem a ser um romancista de extrema importância para a literatura contemporânea, detentor de um invejável Casa de Las Américas no currículo. Como Silviano Santiago e Deonísio da Silva não estão no páreo e os poetas Alexei Bueno e Carlito Azevedo aguardam mais propícia ocasião, é provável que a opção de escolha dos imortais seja mesmo favorável a Antônio Cícero, apenas não diria que por dádiva de aclamação, conforme o creio que seria nos casos de Manoel de Barros e Ferreira Gullar.

A impressão que fica no ar é que, com a idade avançada de Manoel de Barros, a irredutível posição de recusa de Ferreira Gullar e o exílio voluntário de Armando Freitas Filho, no momento não haveria substituto à altura para receber o bastão da imortalidade das mãos de Lêdo Ivo. Decerto, para o próximo pleito a expectativa é que Alexei Bueno e Carlito Azevedo se afirmem como os mais importantes escritores de sua geração, posto que menos divulgados do que os midiáticos Jô Soares, Chico Buarque, Caetano Veloso e Luís Fernando Veríssimo, a fim de que sejam os eleitos por se enquadrarem mais a contento nos moldes de aprovação, que deveria permear o sufrágio de cada membro da Acadêmica Brasileira de Letras.

Enfim, que a expectativa de uma peleja cordial se faça representar pela conduta de cada candidato ao pleito acadêmico, desde os mais aclamados pelo público e crítica aos autores desconhecidos em busca de quinze minutos de glória. E, sobretudo, que se habilitem ao desafio da posteridade, de modo que a vitória se coadune ao nortear-se pelo tempo da criação por se inscrever nos torrões da imortalidade.

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). -wanderlourenco@uol.com.br