Nem tudo é democracia
Não é só o Brasil que vive esse suceder de casos escabrosos de corrupção, falta de classe, cumplicidades na sociedade com o uso e abuso da função pública. E até com relações extraconjugais.
Acabo de chegar à Espanha, onde os escândalos se sucedem em velocidade e valores inimagináveis. E atingem governo, oposição e até um genro do rei. Este, que recebeu o título de Duque de Palma, teve o seu nome e o da mulher retirados de importante rua da cidade de Palma.
Um líder socialista da Catalunha aplicou, via paraíso fiscal inglês, dois bilhões e meio de euros na compra de bens imóveis na Espanha, mais de 500 do Banco Santander e quase todos os imóveis do grupo que edita o jornal El País. Já o ex-tesoureiro do partido governista foi apanhado com 22 milhões de euros em conta no exterior, e parece que tem muito mais. Tem prefeito com direito a 25 motoristas. Enfim, são mais de 30 os casos envolvendo políticos só este ano.
O sindicato da Ibéria não aceitou os cortes de pessoal propostos pelos controladores e ameaça greve. Pode é parar, como foi no Brasil com a nossa querida Varig. Na verdade, só num mundo louco se pode defender a manutenção das atividades, sem cortes, numa empresa que perde quase dois milhões de euros por dia. Portugal também passou a ter sua classe política cercada de suspeições de toda ordem. Há situações delicadas como a do antigo primeiro-ministro socialista José Sócrates, que vive em Paris uma bela vida e declara que os recursos são de “empréstimos”.
Agora, sabe-se que não bastam eleições diretas para se melhorar os países, inclusive sob o ponto de vista moral. Afinal, Espanha e Portugal viveram décadas de regimes autoritários, com raros casos de corrupção, desde que, passados anos, e mortos os altos mandatários, nenhuma herança se tornou conhecida. Se roubaram, não contaram nem para as famílias. O Egito, que vivia uma ditadura branda, com direito de ir e vir assegurado, e livre iniciativa, caiu no caos, e a situação do povo só piorou. E a economia vai para o colapso.
Na verdade, o mundo está mesmo sem um norte. Sem lideranças, sem um projeto de bom-senso. A África, então, nem se fala!
Faltam elites, homens que pensem nas suas carreiras e seus negócios, mas que tenham ideais, cultura e consciência de que há coisa pior do que as agressões ao meio ambiente e as ameaças nucleares sabidas. Podemos explodir na baderna, na roubalheira e nas guerras civis. Vamos rezar!
Aristóteles Drummond é jornalista. - aristotelesdrummond@mls.com.br
