Método para engarrafar poesia 

Por Wander Lourenço* 

No intervalo da filmagem do documentário Dom Quixote dos pampas – Cinebiografia de Carlos Nejar, eu e Ivan Junqueira discorríamos sobre as perspectivas de formação de um público leitor para assimilação da produção literária contemporânea. Após o instigante diálogo com mestre, embalde, refleti sobre uma fórmula de divulgação dos autores de poesia, porque os romancistas, guardadas as devidas proporções, são uns privilegiados no aspecto de comercialização, a fim de se driblar as dificuldades de distribuição, que ainda são consideradas invencíveis por editores e consultores de mercado. 

Foi quando me apercebi de que, para difundir as garatujas dos bardos, vates, trovadores e menestréis coevos seria preciso inventar um visionário alquimista, que se prontificasse a engarrafar poesia de modo a se difundir o produto nacional, como se fosse mercadoria tipo exportação. Na safra das garrafas de versos envelhecidos em barril, gavetas, arquivos ou baú de carvalho, se acaso eu pudesse interferir na primeira distribuição dos produtos fabricados, lírica e artesanalmente, como se fossem licores e aguardente abrigados por rolha de milho, disponibilizaria em prateleiras de supermercados e banca de jornal as edições de Terno novo, de André Luiz Pinto, e Domingos em nós, de Beatriz Bajo, com encadernação de vidro e rótulo de luz.

Aliás, como diria esta poetisa de origem paulistana, Bia Bajo, sentada em banco de praça de Londrina: “Quanta luz poderia atravessar o espaço? / naquela parte tão franca / pensava em sujar palavras / rasurá-las, cuspir nas palavras... / era bom vê-las manchadas de gente”.  Por intermédio de um eficaz projeto de mídia e marketing, se diria que, quando os leitores abrissem as embalagens repletas de lirismo, se embebedariam do discurso poético destes artesãos do vocábulo, artífices de uma escrita fascinante e retilínea que, ao primeiro sorvo, gole ou trago, viciasse tal qual se forjasse palavra de alambique. Como se, enigmático, André Luiz Pinto indagasse aos cometas que rabiscam a órbita da Terra em torno de si: “Qual a marca / do ódio dessa cicatriz? Até que ponto / o poente acende nas mãos?”

Poder-se-ia dizê-los, propagá-los, herdeiros de um tecelão de nomeada Manoel de Barros a esculpir o horizonte a canivete ou unha de onça pantaneira. De fato seria uma excelente estratégia de apresentá-los, acaso ambos não tivessem em processo de desvencilhar-se das peles e penas de outrora, a gorjearem-se pela orquestração dos ritmos e indícios de si mesmos, qual cobra ou pássaro. Ao engarrafar poesia para entrega em domicílios ou supermercados, os fabricantes de quimeras se empenhariam em cultivar identidades por intermédio de estilo, códigos e marcas autorais, que se subscrevessem a partir de uma assinatura, exclamação, reticências ou vírgula.

Ao armazenarem a mercadoria lírica em prateleiras da recordação e memória, os consumidores por rituais e ceias, quiçá, se prontificariam a celebrar relíquias de adega, como um Bandeira ano 19 ou um Drummond safra 36. Ao se dirigirem ao jardim para um licor Vinícius safra 49 ou Cabral ano 57, os degustadores da lira, contrabandeada por passaportes e alfândegas, embriagados de poesia, assistiriam ao espetáculo em companhia de flautas e cítaras, de modo a se habilitarem a recitar nos saraus dos salões e teatros uma ode política de Ferreira Gullar safra 68 ou um soneto de versos livres de Mário Quintana ano 73. 

E se utilizaria a colheita made in Brasil nos moldes de uma espécie de aguardente de espírito, como instrumento de entorpecer a ignorância ao se emoldurar pela sensibilidade de um conceito de pátria, que se sobrepõe ao significado de um dicionário ou neologismo. Pois que, por prescrever-se no labirinto mais sublime da alma, aflora-se por um vago e rouco aceno de consciência. Decerto, o singular abstrato verso se arvoraria a elucidar a essência mais crucial do enigma humano, em registro de pedra, pergaminho, livro ou engarrafado em fórmula líquida. Conforme advertira o Poeta, em seu Terno novo: “Um mínimo lastro de vento é o ponto de partida / do que não sabemos mas escreveu / se na hora de escrever / já não havia”.

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco