No esporte assim como na vida

Por Selvino Heck* 

Aos 61 anos estou na dúvida se não entendo mais da vida que do futebol ou do esporte. Ou se vida, futebol/esporte (e política) andam tão misturados que é difícil saber mais de um que de outro. 

Os fatos.

Como quase todo mundo, estive grudado na televisão e na Olimpíada no último fim de semana, ineditamente livre. Sábado, final do futebol masculino, com Neymar e tudo. Todo mundo dizendo: desta vez vai dar, o Brasil será campeão, finalmente. Até que acontece o gol do México aos 28 segundos. Lembrei de uma das regras não escritas no futebol, que vale para o esporte e a política: o primeiro passo para perder é achar que já ganhou. Ninguém ganha antes do apito final. Ninguém perde antes do último voto contado. Além disso, levar gol no primeiro minuto de jogo é sempre muito difícil de reverter. Dito e feito. O Brasil perdeu. O sonhado ouro, quem sabe, acontecerá na Olimpíada do Rio em 2016.

Depois, a final do vôlei feminino, as fantásticas gurias saindo do fundo do poço e levando o ouro. Outra regra não escrita no esporte: para ganhar é preciso garra, coração e, evidentemente, talento. Foi o caso das meninas do vôlei, foi o caso dos meninos do México cantando o hino mexicano a todo vapor. Não pareceu o caso dos meninos brasileiros. 

Domingo, final do vôlei masculino. Partida praticamente ganha, dois sets a zero, dois ‘matchs points’ e o Brasil não ‘mata’ o jogo. Pensei: complicou a vitória. Dito e feito. O time, experiente, não se acertou mais. Terceira regra não escrita: na adversidade ou no erro, não se pode perder a determinação, a coragem e a valentia. Como diria o gaúcho, “não podemos se entregar pros hômi de jeito nenhum, amigo/a e companheiro/a”. 

Ultima prova da Olimpíada. Vejo a menina franzina do Nordeste, Yane Marques, de Afogados da Ingazeira, Pernambuco, lutando contra as fortes europeias no pentatlo e ganhando o bronze no esforço. Cruza a linha de chegada esfalfada, cai quase morta no chão, mas vitoriosa, mais que vitoriosa para quem conhece sua vida e origem. Quarta regra não escrita: no esporte, os aparentemente mais fracos têm chance de vencer contra os supostamente mais fortes. 

Sou torcedor do São Luiz de Santa Emília, minha comunidade de nascimento, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul, onde tive a felicidade de ser um razoável meia-esquerda em idos tempos. Último passado era a final de futsal de Escolinhas. O São Luiz ganhou o primeiro jogo no seu ginásio, o Luizão, fácil, fácil, goleada, a torcida jogando junto. Estava decidido e publicado que o segundo jogo também seria em casa. No dia do primeiro jogo, resolveram mudar o local do segundo jogo para o ginásio do adversário, com concordância dos vitoriosos do primeiro jogo, o São Luiz. Resultado: o São Luiz perdeu o jogo e o campeonato. Quinta regra não escrita: no esporte, na vida (e na política), não se pode dar chance para o azar (e para o adversário). Mas dada a chance, por este ou aquele motivo, é preciso reconhecer o erro. A vida continua. 

A vida e o esporte (e a política) se aproximam muito. Um dia se perde, outro dia se ganha. Não se pode, porém, ter medo de perder. Nem de ganhar. A vida é para ser vivida. O jogo é para ser jogado. De preferência, com alegria e coragem. 

Contrariando o dito popular de que de "onde não se espera nada, aí é que não sai nada mesmo", no esporte e na vida de onde não se espera nada algo de bom pode vir ou acontecer. Foi o caso do Arthur Zanetti e suas argolas, da Yane Marques no pentatlo, ou do corredor de Uganda na maratona. No esporte e na vida nada é impossível. Ninguém está afastado de conquistas e glórias ou é imprestável de antemão. As plantas mais tenras e frágeis podem dar as frutas mais gostosas. A vida sempre revela surpresas se a gente acreditar em si e nos outros. 

A vida, mesmo em seus percalços, é essa coisa maravilhosa que nos deslumbra todos os dias. Mais ainda se nela tiver coração, se algum tipo de amor estiver no seu centro e não na periferia, se estiver coroada de solidariedade e se a gente souber aprender todos os dias com seus encantos e desencantos. Não há frustrações irreversíveis, no esporte e na vida. E há vitórias que acalentam os dias, empurram para a frente e levam à busca e à luta por novos sonhos. Os exemplos estão aí, e não me deixam mentir.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.