Mobilidade e as concessões dos aeroportos 

Por Humberto Viana Guimarães* 

Segundo noticiado pelos meios de comunicação, nos próximos dias deverá ser lançado o PAC das concessões, que englobará em torno de 5.700 quilômetros de rodovias e mais 5 mil quilômetros de ferrovias. Não resta dúvida de que é uma notícia alvissareira, visto que a situação da nossa infraestrutura, não obstante as promessas dos últimos nove anos, continua cada dia pior. Basta ver o que é publicado diariamente pela imprensa: mais de 100 navios esperando para atracar nos ineficientes e caros portos; rodovias engarrafadas e mal conservadas; malha ferroviária lenta e deficiente; e os corriqueiros problemas dos aeroportos.

Em relação ao item ferrovias do PAC das concessões, o que se ventila é que as novas obras deverão ser construídas com bitola larga – mais modernas – e que sejam capazes de transportar maiores volumes de cargas. No entanto, não li nada a respeito do transporte de passageiros. É um absurdo e inaceitável que um país-continente como o Brasil não tenha uma malha ferroviária abrangente para transporte de pessoas. O Japão, com um território 22 vezes menor, tem a mesma extensão da malha ferroviária do Brasil, 30 mil quilômetros, aí incluídos os modernos e rápidos shinkansen(trem bala), que estão em operação desde 1964. Enquanto isso, o cidadão brasileiro, para se deslocar, tem que se aventurar pelas perigosas rodovias (com exceção daquelas pedagiadas e bem conservadas de São Paulo) ou então a viagem aérea, cada vez mais cara e problemática, em função não só da situação caótica dos aeroportos como, também, da ineficiente mobilidade urbana.

Alguma dúvida? Por acaso, existe alguma ligação metroviária ou ferroviária rápida entre os maiores centros urbanos e os aeroportos? Como explicar, por exemplo, que até hoje não exista uma linha de metrô entre o centro de São Paulo e o aeroporto de Guarulhos, ou, no caso do Rio, ligando o centro da cidade ao aeroporto do Galeão? Só a título de ilustração, na Olimpíada que ora se realiza em Londres, um dos objetivos das autoridades foi que as pessoas não utilizassem os seus veículos para chegar aos estádios olímpicos, e sim o trem de alta velocidade (TAV), metrô e por último o conhecidíssimo (e atração turística) ônibus vermelho de dois andares.

Como sabemos, já foram concessionados três aeroportos: Campinas, Guarulhos e Brasília — e, por incrível que pareça, não foi exigido nada, absolutamente nada, a respeito da mobilidade e da necessidade de instalação de instrumentos de controle (como abordei no texto anterior). Pelo visto, o passageiro continuará enfrentando o caótico trânsito urbano para chegar até os terminais e, estando lá, tomar um verdadeiro “chá de cadeira” (se tiver cadeira suficiente para sentar, senão a solução é sentar no chão, como vemos constantemente) e enfrentar a má vontade das empresas aéreas, até que o tempo melhore e os aviões possam pousar e decolar!

O aeroporto de Campinas é ainda mais emblemático, pois esse terminal deverá ter um grande incremento no movimento de passageiros, e aí vem a pergunta: como esses usuários se deslocarão até São Paulo, que seguramente será o destino final da maioria dos passageiros? Continuarão enfrentando o cada vez mais caótico trânsito, gastando bilhões de litros de combustível (e outros tantos bilhões de reais) e perdendo horas e horas nos intermináveis engarrafamentos?

Um fato é certo: se não for executada uma ligação ferroviária rápida entre Campinas e São Paulo, o aeroporto de Viracopos estará fadado a ser um grande “elefante branco”. O óbvio é que, paralela à ampliação dos aeroportos, fossem executadas obras de mobilidade – metroviárias ou ferroviárias, dependendo da distância. Se assim fosse feito, o passageiro sairia direto do avião, pegaria o trem ou o metrô e em minutos, sem nenhum tipo de obstáculo, estaria no seu destino final.

Já passou da hora de o Brasil deixar de lado esse problemático, caro e poluente modal rodoviário e utilizar os bens sucedidos projetos dos principais aeroportos da Europa e da Ásia.

Se o trem de alta velocidade (TAV), por exemplo, cujo projeto é ligar Campinas ao Rio, passando por São Paulo, em somente uma hora e 40 minutos, tivesse deixado os palanques eleitoreiros e tivesse sido iniciado no governo do ex-presidente Lula, como foi prometido inúmeras vezes, pelo menos o trecho Campinas-São Paulo seria concluído até 2014. No entanto, foi jogado para as calendas de 2020!

O chamativo em tudo isso é que, constantemente, as nossas autoridades viajam para as capitais europeias e asiáticas para ver de perto as bem sucedidas experiências dessas cidades e as soluções para os nossos problemas de mobilidade urbana. Ficam vários dias por lá, mas quando voltam ao Brasil não tomam absolutamente nenhuma providência. Milhões e milhões de dólares são gastos com estas viagens – que nada mais são do que turismo de alto luxo pago pelos contribuintes – e nada é resolvido; tudo continua como antes!

Se os nossos governantes tivessem a coragem de, durante uma semana, passar pelas dificuldades da população para se locomover, seguramente investiriam em metrô, VLT e ferrovias. Enquanto isso, bem! O cidadão comum continua enfrentando as infindáveis horas nos engarrafamentos em ônibus superlotados para chegar ao seu destino, enquanto as nossas autoridades voam tranquilamente em seus modernos e luxuosos helicópteros pagos pelos contribuintes, claro!.

 

*Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em estruturas de concreto, geração de energia, saneamento e materiais explosivos.