Frases de cabeceira 

Por Wander Lourenço* 

Em Teoria do medalhão, no diálogo esboçado por Machado de Assis, um patriarca anônimo explica ao filho que, para se tornar célebre e respeitável figurão da sociedade, deveria empregar máximas, sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocardos jurídicos etc. Nesta contemporaneidade há um curioso fenômeno até certo ponto filosófico e psicanalítico, que se assemelha aos conselhos da personagem machadiana ao futuro representante da intelligentsia desta ilustre e incauta nação brasileira. Trata-se de uma assídua e incômoda reprodução de frases das personalidades da literatura por criaturas oportunistas que, supõe-se, ultrapassaram o grau de analfabetismo literário vigente no panorama nacional. Tudo isto para se promoverem por intermédio de um fragmento ou outro escrito por Fernando Pessoa, Clarice Lispector ou José Saramago. Cito estes três autores, pois que julgo serem as vítimas prediletas desta classe de larápios cultuadores de frases de cabeceira...

Esta prática contumaz dos usuários da ficção alheia para proveito próprio — leia-se apropriação indébita da intelectualidade de outrem —, se instaura a partir do momento em que usurpadores divulgam a suposta erudição por meio das redes sociais. Diga-se de passagem, os (pseudo)leitores não se atreveram a cometer a leitura de sequer um capítulo de romance, haja vista que se satisfazem com um fragmento de conto, poema ou crônica. O fato é que a sapiência forjada invade de tal modo o espaço público que qualquer bom divulgador de sites, blogs, Orkut, Facebook, Twiter e afins se transforma em leitor de Virgínia Woolf ou Sartre. Em verdade, por este ato de preguiça intelectual o autor vem a ser reduzido à triste condição de "grande frasista", ao passo que o sujeito aproveitador e oportunista desfruta da condição de um ilustrado leitor com rara sensibilidade para não só apreciá-los como também se sentir habilitado a fazer uso da citação para obter privilégios pessoais. Creio que sem se darem conta desta estapafúrdia missão, os colecionadores de frases menosprezam o espólio da arte ficcional ao se aterem ao reducionismo de uma escolha que, de certa forma, provoca a amputação em alto grau da propriedade do discurso já mencionada por Platão em Fedro, no capítulo A invenção da escrita. Afinal por que ler O castelo, de Kafka, ou Em busca do tempo perdido, de Proust, se posso me aproveitar de um excerto já utilizado por aquele "leitor descolado e erudito", que descobrira um instrumento de promoção individual através da referência ao renomado escritor?

É preciso reagir a estes (pseudo)leitores com uma obra de um Cervantes, Faulkner ou um Thomas Mann. Sugiro Dom Quixote de La Mancha, O som e a fúria e Os Buddenbrooks, para que aqueles que fazem do costume da citação quase um ofício se identifiquem com os autores em sua legítima essência ficcional. Alguns estudiosos da questão se ancoram na justificativa de que o vício ou epidema de se ler através de fragmentos se origina no ritmo imposto por tempos pós-modernos... É provável que os teóricos da pós-modernidade que, equivocadamente, consideram que a literatura deve ser estudada por núcleos (feminino, negro, homoafetivo, judaico etc), deveriam promover uma campanha ou simpósio sobre a elucidação das causas e consequências dos hábitos de valorização da frase de cabeceira sobre estes seres difusos e fragmentários. Creio até que seja algo que se posicione entre o charlatanismo e o subconsciente — e neste instante poderia até não me furtar ao direito de citar Freud ou mesmo Jung —, de modo a impulsionar o caso ao patamar de uma patologia clínica denominada Síndrome de Abstinência Textual (SAT).

Quiçá alguns destes filósofos do minimalismo possam propor a fundação de um sindicato para organizar a categoria; e quiçá, no momento posterior, se tornarem presidente desta República das Letras, de vez que um não leitor convicto o fizera por meio de breves paródias futebolísticas para sustentar a sua eleição e popularidade. Sem pragmática psicanalítica, observa-se que a diferença mínima entre o analfabeto e o divulgador de frases de cabeceira situa-se na fresta de luz que adentra a impossibilidade de acessar a mensagem do iletrado e o comodismo psíquico deste (pseudo)leitor, que não se arvora a colher informação pelo viés do símbolo ou signo do registro literário como um todo. Por esta razão, creio que a frase de efeito extraída de um discurso se torna eficaz por seu imediatismo, o que integraria o indivíduo a um espaço social para alçá-lo ao patamar de intelectualidade do qual usufrui por unanimidade o título de especialista em determinados autores.

Para não cansar o leitor, a crônica até poderia se encerrar com uma citação enfática de Borges ou Confúcio; entretanto, por questões patrióticas opto por recorrer ao... como é mesmo o nome daquele frasista espetacular... Sim, seria o Luís Fernando Veríssimo, o Zuenir Ventura, o João Ubaldo Ribeiro ou aqueloutro, um que morreu faz pouco... Ah, sim, o Millôr Fernandes: "Quando um chato diz: 'Eu vou embora', que presença de espírito!".

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco.