Por um prefácio póstumo
Nos idos de 2009 almoçávamos numa pensão do Rio Comprido, eu, Tavinho Paes e Stella Caymmi, quando esta nos revelou que uma de suas paixões literárias era o poeta Bruno Tolentino que conheceu em 1996, quando participou do Encontro Nacional de Estudantes de Letras (ENEL), em Imperatriz- Maranhão. Naquela ocasião, alguns alunos da Universidade Federal do Ceará o entrevistavam para um desses jornais literários e me instigaram a fazer perguntas ao polêmico intelectual que, com toda razão, havia acabado de declarar a uma revista que os livros didáticos de Língua Portuguesa deveriam se utilizar de poemas, não de letras de música de Vinícius de Moraes, Chico Buarque etc.
Em plena primavera maranhense, disse-lhe que iria até o rio Tocantins beliscar um peixe frito com cerveja gelada. Para surpresa geral, Tolentino convidou-se a participar do programa, desde que lhe emprestassemos um calção de banho. Ao chegarmos às margens do rio, embarcamos numa canoa até a Praia do Goiás, já no estado de Tocantins. No percurso, expliquei-lhe que iria ministrar uma palestra sobre Clarice Lispector. Foi então que o poeta contou-me que convivera com a escritora no período em que fora proprietário de uma chácara no Recreio dos Bandeirantes e lhe fornecia ovos frescos e verduras. Anos mais tarde indaguei à biógrafa Teresa Montero sobre a veracidade deste depoimento. Ela me respondera que ouvira a mesma versão quando o entrevistara para feitura de seu livro Clarice – eu sou uma pergunta(Rocco, 1998).
Ao tomar conhecimento do convívio entre Lispector e Tolentino, atrevi-me a convidá-lo a participar da comunicação que faria no sábado seguinte, a fim de que, enquanto eu explorasse os aspectos da pesquisa intitulada “Unidades e fragmentos – o Eros revisitado em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, o ex-professor de Harvard exporia a menção biográfica. Convite aceito. A atenta plateia se deliciou com suas frases de efeito e anedotas. Ao retornarmos, contei-lhe que eu era dramaturgo e, em breve, publicaria um livro com algumas peças de teatro. O poeta olhou-me com certo desdém; disse-me, no entanto, que se eu conseguisse uma editoria ele faria o prefácio da obra.
Era a primeira vez que eu conversava com um escritor consagrado e já poderia me gabar por receber a promessa de se prefaciado por Bruno Tolentino. Ocorre que após retornar a Niterói, alguns meses depois, esbarrei-me com o Tolentino, na Cantareira, em São Domingos. Fomos beber cerveja e comer caranguejo no Bar do Pardal. No calor da conversa, convidei-o para uma conferência na UFF, porque quiçá até poderíamos repetir o grande feito sobre Clarice Lispector no Maranhão. Na data e horário combinados, o recepcionamos no salão Macunaíma do bloco de Letras. Creio que a homenagem ao mestre paulistano foi o mote para o palestrante esquecer Clarice e começar a espinafrar Mário e Oswald de Andrade, o concretismo etc.
Logo após o debate do auditório, dirigimo-nos ao Pardal. Lá chegando, Tolentino se demonstrara indignado por ter perdido o Prêmio Nestlê que, sarcasticamente, alcunhara de Leite Ninho, para o poeta Manoel de Barros. Dizia-nos que, mais por misericórdia do que por injustiça, os organizadores desencavaram o velho bardo com o pé na cova para homenageá-lo, em detrimento de uma superior importância literária representada por sua satírica pena. Logo ele, Tolentino, que desafiara Haroldo de Campos para um duelo em grego na TVE; que quando residiu em Salvador presenciara as discussões sobre as diretrizes do Cinema Novo com Glauber Rocha e da Tropicália com Caetano Veloso; e que no exame de aprovação para o corpo docente de Oxford só não dominava o idioma russo, mas que ainda iria aprender para ler Dostoievski no original.
Confesso que ainda tentei argumentar que Manoel de Barros seria um nome a ser respeitado, sobretudo, por sua moderna relevância estética e que sua Didática da invenção... Todavia, diante de tão substanciosa revolta pelo resultado da premiação literária, resolvi calar-me para ouvi-lo reafirmar que era um absurdo ser derrotado por mera piedade da comissão julgadora, só porque o adversário iria morrer e ele enfim receberia o prêmio da vida.
Por ironia do destino, Bruno Tolentino falecera em 2007, Manoel de Barros acaba de completar 95 anos e eu, enfim, estou até hoje a aguardar pelo prefácio de um autor com tão belicoso calibre intelectual.
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’.
