Uma serenata para Herivelto Martins
Quem dera ao cronista fosse permitido convidar os violonistas Ronaldo Zanon e Alfredo Del-Penho para que, à luz da talentosa intérprete Elisa Queirós, ao som do bandolim Hamilton de Holanda, da flauta de Marcelo Bernardes e do pandeiro de Marcos Suzano, organizássemos uma homenagem ao centenário de um mestre sambista, sob a bênção de Iemanjá e São Sebastião. Por anseios e quimeras, a serenata deveria varar a noite porque, após breve ensaio de botequim para acertos de timbres e gorjeios, iniciaríamos a seresta debaixo da sacada de uma Isaura ou Odete, com a clássica canção Ave Maria no Morro: “Barracão / De zinco / Sem telhado / Sem pintura lá no morro / Barracão é bangalô / Lá não existe / Felicidade / De arranha-céu”. Ao fim das primeiras estrofes, um tanto quanto embriagados pela poesia desta espécie de oração de terreiro, entoaríamos em coro: “E o morro inteiro / No fim do dia / Reza uma prece / À Ave Maria / Ave Maria / Ave".
No segundo número do recital de pardais, quiçá embalsamados pelo lirismo da lua cheia, em memória de Dalva de Oliveira, entorpecidos pela beleza dos versos que melhor retratam a ingratidão humana no cancioneiro popular pátrio, iríamos de Atiraste uma pedra, da ilustre parceria com David Nasser: “Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem / E quebraste um telhado, perdeste um abrigo / Feriste um amigo / Conseguiste magoar quem das mágoas te livrou / Atiraste uma pedra com as mãos que essa boca / Tantas vezes beijou / Quebraste um telhado / Que nas noites de frio te servia de abrigo”. Logo a seguir, ao saudarmos a genialidade de Grande Otelo, nós, os membros desta intrépida orquestra de súditos, declamaríamos em procissão até o palco dos Carnavais de outrora: “Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais Escola de Samba, não vai / Chora o tamborim / Chora o morro inteiro / Favela, Salgueiro / Mangueira, Estação Primeira / Guardai os vossos pandeiros, guardai / Porque a Escola de Samba não sai".
Já alta madrugada em plena Rua do Ouvidor, o maestro Bernardes, com o instrumento a servir-lhe de batuta, decerto indicaria que acenássemos com a afamada Nega manhosa: “Levanta, levanta, nega manhosa / Deixa de ser preguiçosa / Vai procurar o que fazer / Ó, nega, deixa de fita / Prepara a minha marmita / Levanta, nega, vai te virar” para, em sagrado pot-pourri, emendarmos Cabelos brancos: “Não falem desta mulher perto de mim / Não falem pra não lembrar minha dor / Já fui moço, já gozei a mocidade / Se me lembro dela me dá saudade / Por ela vivo aos trancos e barrancos / Respeitem ao menos os meus cabelos / Brancos”. No momento posterior, presumo que engataríamos Meu rádio e meu mulato: “Comprei um rádio muito bom a prestação / Levei-o para o morro / E instalei-o no meu próprio barracão / E toda tardinha, quando eu chego pra jantar / Logo ponho o rádio pra tocar / E a vizinhança pouco a pouco vai chegando / E vai se aglomerando o povaréu lá no portão / Mas quem eu queria não vem nunca / Por não gostar de música / E não ter coração".
Após uns poucos goles de aguardente de alambique, diríamos em lá menor para a tal dona agora já debruçada de camisola à janela de um sobrado da Lapa antiga, “bairro de quatro letras, onde tanto malandro viveu e valente morreu”, que: “Teu mal é comentar o passado / Ninguém precisa saber o que houve entre nós dois / O peixe é pro fundo das rede / Segredo é pra quatro paredes”, pois que, apesar da dor da saudade, Caminhemos: “Não, eu não posso lembrar que te amei / Não, eu preciso esquecer que sofri / Faça de conta que o tempo passou / E que tudo entre nós terminou / E que a vida não continuou pra nós dois / Talvez nos vejamos depois”, porque afinal “Eu amanheço pensando em ti / Eu anoiteço pensando em ti / Eu não te esqueço / É dia e noite pensando em ti / Eu vejo a vida pela luz dos olhos teus / Me deixa ao menos, por favor, pensar em Deus".
Com o raiar do sol, em uníssono agradeceríamos ao Poeta pela sua musicalidade com a derradeira toada Saudosa Mangueira, para gozarmos de uma estranha nostalgia do que não vivenciamos, mas que nos faz forjar uma memória inventada para festejar o saudoso Herivelto Martins: “Aí Mangueira, minha saudosa Mangueira / Já não se samba mais à luz do lampião / E a cabrocha não vai pro terreiro de pé no chão".
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco
