O julgamento
Sócrates tinha um domínio de si próprio a toda a prova. Certa feita, um contraditor, já sem argumentos, dá uma bofetada em Sócrates, e este responde-lhe tranquilamente: “É extremamente aborrecido não saber quando é preciso pôr um capacete antes de sair”.
Uma personalidade da envergadura de Sócrates não podia deixar de atrair a incompreensão dos que o viam como um perigo para a ordem social. Daí ser acusado por Melêto, Ânito e Lícon do crime de não admitir os deuses reconhecidos pelo Estado e de corromper a juventude. Melêto era um obscuro poeta e Lícon un retórico; Ânito parece ter sido a alma do processo contra Sócrates; era um rico tanoeiro que representava os interesses dos comerciantes e “industriais”. Sócrates ter-lhe-ia recriminado publicamente por não pensar na educação de seu filho, senão para fazer dele um tanoeiro capaz de seguir com a empresa paterna.
Entretanto, é preciso procurar noutro lugar as razões do processo de Sócrates. Este não é somente um acontecimento histórico à margem de qualquer repetição; é, sobretudo, um processo movido ao pensamento que investiga os problemas verdadeiros. Importunando os atenienses, Sócrates os impedia de pensar segundo hábitos adquiridos, de repousar em soluções morais, sociais, acabadas. Recusando os préstimos de Lísias, advogado de profissão, Sócrates vai dizer quem é perante seus julgadores.
Longe de ser aquele que corrompe a juventude, Sócrates é aquele que a educa; longe de ser aquele que não acredita nos deuses da cidade e que introduz novos deuses, Sócrates é a consciência dos atenienses, aquele que procura fazer-lhes compreender que não é o homem e, sim, Deus a medida de todas as coisas. Os juízes deliberaram e 281 votos declararam Sócrates culpado contra 278, segundo o texto de Platão. Os acusadores haviam pedido a morte, mas o acusado era livre para fazer uma contraproposta, e os juízes tinham que escolher uma ou outra. A resposta de Sócrates apareceu aos juízes como um ultraje, e sua condenação à morte foi votada com 80 votos mais do que tinha sido votada a sua culpabilidade.
Sócrates então diz: “Acabais de condenar-me na esperança de ficardes livres de dar contas da vossa vida; ora, é exatamente o contrário que vos acontecerá, asseguro-vos. Vereis crescer o número destes inquisidores, que eu retive até o presente, sem que vós vos apercebeis disso”. Neste ano, inspirada por Sócrates, a sociedade brasileira vai acompanhar atentamente o julgamento do mensalão pelo STF.
* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.
