Acidente em Guará e Carioca: alerta no pré-sal
Como sabemos, no dia 25 de dezembro de 2010, o consórcio que tem a concessão na área de Guará, formado pela Petrobras (45%, operadora), BG Group (30%) e Repsol (25%), deu início ao Teste de Longa Duração (TLD), do bloco BM-S-9, com duração prevista de cinco meses.
A estimativa é que Guará tenha volumes recuperáveis entre 1,1 bilhão e 2 bilhões de barris de óleo equivalente (BOE), com 30º API (de boa qualidade, que o coloca quase como leve, que se inicia aos 31,1º API). A produção futura prevista é de 120 mil barris/dia (bd) e 5 milhões de metros cúbicos (m³) de gás. O TLD era feito pela plataforma FPWSO Dynamic Producer, da Petroserv. No entanto, em 01/03/11, ocorreu o rompimento da tubulação que interligava a plataforma ao poço. Logo após o acidente, a Petrobras comunicou, em 02/03/11, que “desde o último domingo (27/02/11) essa plataforma estava em manutenção, com o poço fechado e todas as condições de segurança inteiramente atendidas. Ontem (01/03/11), entretanto, ocorreu rompimento da tubulação que interliga a plataforma ao poço. Não houve vazamento de petróleo para o mar, já que o poço estava fechado e, por isso, não havia petróleo e gás na tubulação”.
Até hoje, desconhecemos a causa desse rompimento, já que, apesar de prometido, a Petrobras não comunicou as causas do acidente: “As causas do rompimento da tubulação já estão sendo apuradas. Após essa avaliação e com o sistema de produção recomposto, serão tomadas as providências para reinício desse teste de longa duração” (fonte: www.petrobras.com.br/ri).
À época, publiquei neste Jornal do Brasil, edição de 19/04/11, o texto Acidente em Guará: Lição para o futuro, no qual alertava sobre a possibilidade de ocorrer outros acidentes: “O acidente ocorrido não provocou vazamento de petróleo no mar, em função das normas de segurança previamente adotadas, e, por uma enorme coincidência, não estava havendo bombeamento do poço. Uma coisa é certa: nessas profundezas abissais, em função de suas enormes pressões, a espessa camada (quase gelatinosa) de sal, brusca variação de temperatura entre o poço (acima de 120 graus) e o mar (cinco graus) e correntes marinhas instáveis e muitas delas desconhecidas, acidentes (grandes ou pequenos) sempre serão susceptíveis de ocorrer”.
Chamei a atenção para o fato de que “um estudo criterioso das causas do rompimento da tubulação em Guará servirá para trazer conhecimento e, por conseguinte, o aprimoramento das técnicas atuais ou, quem sabe, a criação de outras novas (esperamos que a Petrobras divulgue os resultados). Afinal, extrair petróleo das profundezas do pré-sal é um processo de learn by doing, pois tudo é superlativo e está por ser desenvolvido. O ocorrido em Guará não é motivo para desânimo, ao contrário, mas serve de uma grande lição para o futuro”.
Quase um ano depois, em 01/03/2012, houve o mesmo tipo de acidente durante o Teste de Longa Duração (TLD) na área de Carioca Nordeste, no pré-sal da bacia de Santos (a Petrobras é a operadora), coincidentemente como a mesma plataforma FPWSO Dynamic Producer, sendo que desta vez estava sendo bombeado petróleo e houve um pequeno vazamento – em torno de 170 barris – que foi imediatamente controlado com o fechamento da válvula de segurança do poço. Esse vazamento formou uma mancha de óleo da ordem de 70 km², que foi dissipada.
Esses acidentes aconteceram durante o TLD, quando as vazões eram ainda. Faço uma pergunta: e, se ocorrerem acidentes quando estes poços estiverem produzindo a full, ou seja, acima de 100 mil barris de petróleo por dia?
Não será por demais recordar que a área do pré-sal tem 800 quilômetros de extensão por 200 de largura, a uma distância de 300 quilômetros do continente; lâmina d’água de quase 3 mil metros (a válvula de Carioca está a 2.140 metros de profundidade), leito rochoso de 2 mil metros e uma instável camada de sal que pode alcançar 2 mil metros de espessura para então se chegar ao petróleo propriamente dito. Ou seja, para que a tubulação chegue até o ponto de sucção do petróleo, os diversos materiais e equipamentos estarão sujeitos a pressões da ordem de 700 quilos por centímetro quadrado (kg/cm²).
Os acidentes ocorridos em Guará e Carioca mostraram de forma inconteste que ainda falta muito para que cheguemos àquelas profundezas de forma segura, e que, para tal, teremos que desenvolver muitas tecnologias para enfrentar essas pressões e eventos que ainda não dominamos.
* Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento
