Um bom exemplo português
A questão das leis trabalhistas é uma das razões do desemprego em Portugal e do fato de afastar investidores que teriam tudo para optar pelo pequeno mas atraente país. Afinal, o clima é ameno; os serviços, bons. E está conectado à África e à América do Sul, via Brasil, com experiência em patamares aceitáveis.
Aqui, as leis trabalhistas chegam às raias do ridículo, criadas no delírio dos primeiros anos do 25 de Abril. Semana passada, saiu o chamado acordo social, que engloba providências naturais mas até curiosas, como desconto nas férias dos dias dados em meio a feriados, diminuir a remuneração de domingos e feriados, hoje, em dobro em dinheiro e mais em horas equivalentes, e criar um banco de horas para o trabalho extraordinário, ou seja, trabalhava-se um e se ganhava três dias. E os altos funcionários de estatais e do Executivo foram mesmo cortados em benefícios. Crise é crise e, como tal, deve ser tratada.
Também ficou acertado que as empresas em dificuldades podem reorganizar seus quadros sem penalidades. Enfim, o que se fez foi a volta às relações normais, praticadas na Inglaterra, na França e na Alemanha, por exemplo, neste mundo em permanente competição.
O mundo enfrenta a China poderosa, entupindo a todos com seus produtos hoje de qualidade, mas de preços baixos em função de regime de semiescravidão em que vivem seus operários. E mais, sem garantias previdenciárias e carga mínima horária semanal. Mas a Europa ainda queria dar-se ao luxo de benesses exageradas. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, dita o bom-senso.
A rede de transmissão de energia e os aeroportos entram na linha de privatizações de curto prazo e vão se constituir em grande avanço em termos de qualidade e investimentos. Para os aeroportos, ao que tudo indica, a Andrade Gutierrez brasileira, através da CCR, está entre as mais cotadas para vencer a licitação em consórcio com seus antigos sócios, da Brisa, que controlam quase todas as estradas portuguesas. Grande exemplo de agilidade estão dando os conservadores que acabam de chegar ao poder, depois de anos de socialismo, cujo líder, Sócrates, hoje vive em Paris. No curto prazo, deve entrar no caixa o correspondente a dez por cento da dívida pública. Os bancos devem receber capitais de fora, sendo que se comenta muito da entrada do Banco do Brasil, que ampliaria sua participação no mercado local.
Notícias positivas diante de uma Europa perplexa e sem a criatividade e determinação de nossos economistas, que, no passado, operaram milagres. Especialmente os que enfrentaram as crises mundiais e a inflação descontrolada interna como os casos de Roberto Campos, Delfim Netto, Mário Henrique Simonsen e Ernane Galvêas. E mais recentemente Pedro Malan, que, com o Proer, salvou nossos bancos, grande gargalo da crise europeia. Infelizmente, nos últimos anos o governo brasileiro voltou a participar diretamente da solução de problemas na banca, ao invés de apenas orientar e facilitar o entendimento entre entes privados.
Hoje o governo é sócio do Votorantin, do Pactual, de tantos outros, numa relação pouco desejável.
* Aristóteles Drummond é jornalista. - aristotelesdrummond@mls.com.br
