Celas de aula II – A parábola do ensino público 

Por Wander Lourenço 

Ao contrário dos métodos jesuíticos de captura do imaginário dos silvícolas ameríndios por intermédio dos autos religiosos para imposição de conceitos civilizatórios, em verdade aproximadamente a partir da segunda metade do século 20, o Estado utilizou-se de outra metodologia para sequestrar o inconsciente coletivo dos professores da rede pública de ensino, pelo hábil e competente método de tortura psíquica incutido por múltiplos aprisionamentos de ordem financeira e intelectual.  A técnica maquiavélica dos  inescrupulosos Calígulas dos trópicos se alicerçaria na degradação instaurada através de pífias políticas salariais e investimento no patrimônio humano, que impulsionam o professor a patamares de tal indigência física e mental que as causas e consequências desta covarde desapropriação de direitos e ideias deságuam, sem emprego de contumazes barrocas hipérboles, numa espécie de mendicância histórica e social.

Humilhado por cínicas proposições de incentivos salariais, o combalido professor, ofendido e sem estímulos de ordem acadêmica e pecuniária, a troco de uma simplória sobrevivência pautada por sórdidas dissimulações por parte dos pútridos discursos proferidos por eternos prefeitos e governadores, cabisbaixo e envergonhado, enfim se submete a compartilhar a sua precária formação educacional porque, obviamente, entre o livro e o feijão opta-se pelo estômago em detrimento do cérebro. De bandulho abarrotado de farinha de mandioca e hipocrisia, sem plano de carreira como incentivo aos cursos de pós-graduação, os profissionais da educação não se habilitam a buscar caminhos de libertação deste execrável cárcere hediondo, que delimita a construção do pensamento crítico a patamares de subserviência e aceitação de uma imoralidade inconstitucional. 

Se concebessem uma política salarial que se pautasse pela dignidade do responsável pela formação de uma sociedade que aspira ao progresso e ordem cívica, a cada dez horas semanais trabalhadas, o professor de ensino fundamental e médio receberia ao menos R$ 1.000 por mês. Com variações propositadas por um sério plano de carreira arquitetado com base num quadro docente de 20, 30 e 40 horas/semana, de acordo com a carga horária o docente da educação pública poderia obter ganhos na ordem de até R$ 4.000 mensais.  Por este viés, a cada comprovante de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado) se acrescentariam míseros R$ 400, de modo que um professor doutor da rede municipal ou estadual alcançaria proporcionalmente ganhos reais de R$ 5.200, por quarenta horas-aula semanais lecionadas.

Esta providencial e utópica resolução, sem dúvida, exterminaria, por exemplo, o chamado déficit docente do estado do Rio de Janeiro; e a Secretaria estadual confeccionaria inúmeros editais dos concursos públicos para contratação de diretores de unidades, obrigatoriamente, detentores de diplomas de doutorado em educação. Por outro ângulo, com o ensino fundamental sob auspícios do município, o governo do senhor Sérgio Cabral Filho obteria plenas condições de se dedicar ao ensino médio e às universidades estaduais com louvor e responsabilidade. Não obstante, no tocante às nomeações dos professores universitários tanto de âmbito estadual como federal, é preciso, com a máxima urgência, rever o processo de seleção dos ingressantes, cujas avaliações contemporâneas contribuem para inúmeras fraudes e injustiças acadêmicas. Digo isto porque, com a formação de uma banca examinadora composta por cinco avaliadores capitaneados pelo professor titular do departamento, as possibilidades de burla e ludíbrio se concretizam, a partir do momento em que o responsável pelo processo seletivo, em dócil conluio com um docente da própria universidade em questão e mais um bom conhecido gentilmente convidado por ele, vem a ser onipotente portador dos três votos suficientes para aprovação de seu eleito privilegiado docente de nível superior – fruto da podridão de uma farsa burlesca e ridícula a que, bestificados, aplaudimos por covardia e complacência.

Aplausos à ignomínia porque, afinal, acaso os cínicos mandatários desta subdesenvolvida e continental Ilha de Vera Cruz se preocupassem com a lisura e a honestidade, o justo seria que os reitores mantivessem como chefe da banca avaliadora o professor titular do departamento, acompanhado por quatro outros docentes sorteados de universidades de outros estados desta República das bananas. Todavia, quiçá mais proveitoso seja ancorar-se no fingimento vigente, porque, além do mais, se educação fosse um tema sério neste país, decerto a Rede Globo de Televisão contrataria uma espécie de Capitão Nascimento em disfarces de Cristóvão Buarque, para, cotidianamente, comentar em rede nacional a catastrófica situação do ensino público brasileiro, ao invés da ocupação do Complexo do Alemão ou da Rocinha pela forças pacificadoras representadas pelos fuzileiros navais da Marinha, Bope, Batalhão de Choque da Polícia Militar e, sobretudo, por José Mariano Beltrame.         

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco