Feliz Ano Velho
A Corrida Internacional de São Silvestre, a mais importante corrida de rua do Brasil, que ocorre todo 31 de dezembro em São Paulo, anuncia a chegada do novo ano. As portas de 2012 foram abertas por seus 25 mil corredores que, a exemplo de tantos outros eventos e festividades da virada do ano, por estarem voltados para o futuro, conseguem reverter a ideia do tempo voraz, tal como o mito grego de Cronos. Ao invés de um tempo devorador que nos consome a cada instante e nos remete ao passado, a corrida de São Silvestre, verdadeiro limítrofe tempestivo já que ocorre na virada do ano, proporciona-nos uma expectativa em relação ao porvir. Dessa maneira, ela consegue neutralizar uma das faces de Jano — o deus romano bifronte —, aquela direcionada para trás, para que nossa atenção esteja volvida apenas para o tempo vindouro. Isso ocorre porque uma espécie de tempo subjetivo entrelaça-se ao calendário objetivo a cada passo de seus corredores que se assumem arautos do novo ano.
Esta tradicional corrida, que acontecia desde meados dos anos 20 até o fim da década de 80 por volta da meia-noite para depois ser transferida por comodidade para o período vespertino, representa pois um rito de passagem: leva-nos para um novo ano (realização do tempo objetivo) e para novas expectativas (transcorrer do tempo subjetivo), daí a importância de sua data. Assim interpretada, ela proporciona uma quase improvável coincidência de planos entre essas duas temporalidades, rompendo a separação entre exterior e interior, tal qual acontece no anel de Moebius.
Ademais, como num quadro do pintor contemporâneo Francis Bacon, o tempo outrossim parece estar figurado nos próprios corpos dos corredores que se contorcem a cada passada, obedecendo a uma lógica da sensação que é agente das deformações transitórias do corpo durante a corrida, como talvez defenderia o filósofo Deleuze. Trata-se de uma espécie de tempo estético que subsiste e insiste em seus corpos, em que uma força sensível, a do correr, entra em contato com outra força insensível que os condiciona a isso, os faz correr. Os relógios que registram as performances dos corredores não conseguem captar nem o tempo estético nem o tempo psicológico que operam por lógicas não cronológicas. Todavia, a ultrapassagem da linha de chegada sinaliza a realização dessa tríplice temporalidade.
Seus corredores trazem-nos portanto boas-novas ao vencerem os 15 km do percurso desta corrida, que é inferior à meia maratona – tanto melhor, se lembrarmos da morte por cansaço de seu inspirador, o soldado grego Feidípides, ao correr os cerca de 42 km que separam as cidades de Maratona e Atenas para anunciar a vitória grega na batalha contra os persas no século V a.C. Os gregos antigos, criadores dos Jogos Olímpicos, consideravam o exercício físico fundamental a ponto de o filósofo Platão considerá-lo um dos temas mais importantes para a educação e a saúde corporal do povo em sua república ideal. Intervenção esta do Estado nos corpos das pessoas que Foucault certamente discordaria, em pleno século 20 da era cristã, chamando-a de “docilização dos corpos”.
Além da “perversão” temporal, a São Silvestre realiza uma “transgressão” na organização espacial da cidade: as principais ruas, antes reservadas ao fluxo de carros, são ocupadas pelas pessoas e percorridas por seus corredores. E as calçadas, antes vias de passagem dos pedestres, tornam-se um lugar de permanência. O fato de a grande maioria dos participantes não ser atleta faz desse evento esportivo uma enorme festa de confraternização que inaugura no finzinho do ano velho as comemorações da passagem do ano e serve como indicador da mobilidade do tempo.
* Valéria Loturco, jornalista, é doutora em filosofia.
