A Opep já não tem o poder de antes
A Pérsia, um dos berços da Civilização, chamada de Irã desde 21/03/1935, é governada desde 1979 — após a queda do regime do xáMohammad Reza Pahlevi —, por uma teocracia (governo em que o poder está na mão do clero), liderada pelo chefe do Conselho dos Guardiães e guia supremo, o aiatolá Sayyid Ali Hossayni Khamenei (cargo que ocupa de forma vitalícia desde 1989, quando sucedeu ao aiatolá Ruhollah Mousavi Khomeini).
O guia supremo, que detém o poder absoluto segundo o artigo 110 da Constituição, pode, inclusive, demitir o presidente. Portanto, Mahmoud Ahmadinejad, aquele que nega o Holocausto, a bem da verdade, não manda nada, pois os ocupantes dos cargos nas Forças Armadas e no Judiciário e ainda os candidatos ao Parlamento são escolhidos pelo líder supremo.
O Irã, mesmo sendo o segundo maior produtor de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com uma média de 3,578 milhões de barris por dia (mbd) — o primeiro é a Arábia Saudita com 9,470 mbd —, gasta bilhões de dólares na importação de derivados, pois a sua indústria de refino está estagnada.
Diga-se de passagem: não só a sua capacidade de refino parou no tempo, a sua produção diária de petróleo, que em 2000 era de 3,671 mbd, em vez de aumentar, caiu 2,53% nos últimos 12 anos (fonte: www.opec.org). Não obstante, todo esse petróleo tem um dos piores IDH (0,707), 88º no ranking.
Parece que algumas autoridades do Irã não são chegadas à leitura do que ocorre pelo mundo afora. Talvez estejam mais preocupadas em financiar os grupos Hezzbollah e Hamas, violar embaixadas, além, é claro, de utilizar urânio para o seu projeto secreto de produzir a bomba atômica para destruir parte do Oriente (Israel) e, quem sabe, alguns países do Ocidente.
Fiz essa pequena introdução sobre o Irã, tendo em vista as recentes declarações (04/12), do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores daquele país, Ramin Mehmanparast, que, temeroso com as várias sanções contra o seu país, declarou ao jornal Sharq que “um assunto (as sanções) tão sério elevaria o preço do petróleo para cerca de 250 dólares o barril”.
Continuou o porta-voz: “Impor sanções ao óleo e gás (iraniano) está entre as que se alguém quiser adotá-las, as consequências devem ser totalmente consideradas antes de ser tomadas. Eu não acredito que a situação mundial, e especialmente o Ocidente, esteja preparada o suficiente para tais decisões”.
Um tremendo BLEFE da autoridade iraniana!
Foi-se o tempo que a todo-poderosa Opep dava as cartas no mundo do petróleo. Quem é da minha geração se recorda das famosas reuniões na década de 1970, na Helferstorferstrasse 17, A-1010, em Viena, sede do cartel petrolífero. O mundo vivia dias de angústia antes das reuniões na Áustria, pois os importadores de petróleo — inclusive o Brasil — dependiam fortemente do fornecimento da Opep.
Passados 40 anos, hoje a situação é totalmente diferente. A produção média diária mundial em 2011, entre janeiro e outubro, inclusive, foi de 82,048 mbd, sendo que, desse total, 52,160 mbd (63,57%) foram produzidos pelos países não pertencentes à Opep e 29,888 mbd (36,43%), pelo cartel petrolífero. Ou seja, a Opep hoje em dia não amedronta mais ninguém!
O sinal mais contundente da perda de importância da Opep foi a chamada Primavera Árabe, que derrubou algumas ditaduras da região do Magreb (norte da África) e continua ameaçando outras no Oriente Médio.
O caso mais indicativo do enfraquecimento da Opep foi o ocorrido na Líbia, que em janeiro/2011 (antes dos confrontos que derrubaram a ditadura de Kadafi), produzia 1,583 mbd e viu sua produção ir a zero. A Líbia exportava quase todo o seu petróleo leve para a Europa; basta atravessar o Mediterrâneo.
E o que aconteceu com o mercado de petróleo? Nada, pois, outros países aumentaram a sua produção (a Arábia Saudita passou de 8,659 mbd para 9,470 mbd), e os preços se mantiveram na mesma escalada que havia antes.
Importante observar que os Estados Unidos, maior consumidor mundial de petróleo, em julho/11 produziu 8,634 mbd e importou 11,667 mbd (U.S. Energy Information Administration, www.eia.gov). No entanto, do total importado, 57,76% foram de países não pertencentes à Opep e os outros 42,24% da Organização, excluído o Irã (12,24%), mas incluídos os 7,98% (1,027 mbd, média) da Venezuela, que tanto critica os norteamericanos, mas não vive sem os petrodólares deles.
Humberto Viana Guimarães, engenheiro civil e consultor, é formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento
