Um bom critério
Como compreender o problema moral em política no país de hoje?
A relação entre moral e política é um dos muitos aspectos da questão moral, mais viva do que nunca. O problema nasce da constatação de que se pode manifestar um contraste entre as ações humanas em diversos campos: entre moral e vida privada, entre moral e direito, entre moral e arte, entre moral e ciência (sobretudo a ciência biológica), entre moral e desenvolvimento tecnológico, entre moral e mundo dos negócios.
Acredita-se que uma ação pode ser julgada politicamente oportuna, ainda que não seja moralmente boa ou economicamente útil. De fato, a discussão do problema moral em política tornou-se aguda com a formação do Estado moderno. Para Hegel, vale o princípio da razão de Estado, ou seja, o princípio de que a moral política tem prioridade sobre a moral propriamente dita, que é a moral privada.
O longo debate sobre a razão de Estado, que se estende por séculos, reafirma que na ação política não são os princípios que contam, mas as “grandes coisas”, no dizer de Maquiavel. O governante, com extraordinária frequência, se vê confrontado com situações excepcionais. Tal frequência se deve ao fato de que ele opera num contexto de relações, especialmente com outros governantes, em que a exceção é elevada a regra, por mais que isso possa ser realmente considerado contraditório.
Só a existência concreta do Estado poderia valer como princípio da sua ação, e não um imperativo moral abstrato que prescinda completamente das exigências e dos vínculos gerados pelo movimento histórico, do qual o Estado — e não o indivíduo singular, e menos ainda a soma de indivíduos singulares — é o protagonista.
A mecanização do Estado atuaria na realidade social em suas concretas exigências e em seus motivos efetivos, alongando-se em um aparato executivo. Como tal, deve ter um funcionamento cada vez mais perfeito, regulando o equilíbrio de forças, impedindo os problemas previsíveis, atenuando os problemas imprevisíveis.
Ora, o Estado não é um ente sobreposto ou submetido ao homem mas uma expressão do homem — vinculado a outros homens com ele coexistentes. Para permitir a maior aproximação possível entre as exigências da moral e as da política, necessita da máxima extensão de confiança recíproca que se pode estabelecer entre os cidadãos, e portanto da eliminação tão completa quanto possível da estratégia da simulação e do engano — recorrente na sucessão, aparentemente interminável, de irregularidades nos ministérios.
A diversa relação entre moral e política deveria sempre indicar a direção em que devemos nos mover para fazer que a nossa forma democrática de governo se aproxime sempre mais do ideal. Um bom critério para avaliar o afastamento entre ideal e real seria julgar quão grande é hoje a força vinculatória das coalizões no Congresso Nacional.
* Tarcisio Padilha Junior é o engenheiro.
