Onze galinhas mortas e um vodu
É preciso informar os leitores que a partida entre Barcelona e Santos, realizada no último domingo, 18 de dezembro de 2011, em verdade fora decidida por uma fantástica intervenção dos deuses do Carnaval. O fato é que quando São Tiago, o de Compostela e não o filho do tetracampeão Mazinho, ex-Vasco da Gama, às vésperas do jogo se deparou com o Joãosinho Trinta a prestar contas de sua ousadia e criatividade nas festas de Momo do Rio de Janeiro, logo passou pela cabeça do apóstolo dar uma de Anísio Abraão David e contratá-lo para organizar o desfile da equipe catalã na final do Mundial de Clubes, no estádio do Yokohama, Japão.
Por dizer não entender do assunto, o artista brasileiro estranhou a solicitação de dirigir um espetáculo de futebol; e, após refletir sobre a inusitada proposta, no primeiro momento alegou patriotismo ao declinar do simpático convite do conduzir o Barcelona ao bicampeonato... Entretanto, o santo andarilho lhe garantiu que, no mundo globalizado das celebridades mortas, essa baboseira de nacionalidade não surtia efeito pelas evidentes questões além-fronteiras: “–– E de mais a mais – obtemperou o judeu pescador –, asseguro que, para o próximo Carnaval, perdão, digo, campeonato espanhol, o mestre-sala Neymar já estará fazendo parte da ilustre constelação do Barça, ao lado de Daniel Alves, Iniesta, Villa etc”. Foi então que ao ouvir a resposta peremptória do criador maranhense, São Tiago de Compostela acrescentou que era uma pena, pois a harmonia do time azul-grená lembrava a Beija-Flor de Nilópolis em seus áureos tempos de avenida – luxo, triunfo, esplendor, irreverência e glória.
Assinado o milionário contrato, o mago do Carnaval explicou que só seria possível derrotar o tradicional Santos do rei Pelé se amarrassem o espírito de um certo moleque Saci-Pererê de nomeada Neymar numa encruzilhada do firmamento, com onze galinhas mortas e um vodu. O apóstolo São Tiago argumentou que não devia ser prudente misturar os ritos africanos com as prédicas católicas, por intermédio de um perigoso sincretismo, que poderia até levar os espanhóis da equipe comandada por Josep Guardiola ao empate ou mesmo à derrota... “–– Que nada, meu santo camarada. Em Salvador, todos os anos torcedores recorrem aos orixás e ao Senhor do Bonfim, não necessariamente nesta ordem, e o campeonato baiano jamais terminou empatado” – asseverou o guardião da folia carioca.
O fabuloso carnavalesco iria tirar da manga da fantasia a tese de defesa de uma espécie de miscigenação religiosa tão característica no Carnaval criado por ele, no instante em que fora iluminado por mais um lampejo de genialidade: “–– E se recorrêssemos ao poder de Nossa Senhora Aparecida, negra de nascituro e tão conhecedora da cultura afro-brasileira povoada por imagens de santos com alma de orixás, missa com cânticos negros acompanhados pelos tambores de macumba...” No que ponderou o santo espanhol nascido em Jerusalém: “–– Lembre-se de que o seu Cristo mendigo foi impedido de adentrar a passarela do samba pelos conservadores representantes da Madre Igreja...” “–– Contudo, mesmo proibido, Ele olhou por nós...” – filosofou o recém-chegado com engenho e maestria.
Ao que parece São Tiago já havia se convencido do hibridismo místico, quando Joãosinho Trinta disse que ainda faltava justificar a presença do vodu angolano ou congolês. “Vodu?!...” “Sim, o vodu do Neymar”. Explicou-lhe que se tratava de um ritual africano em que um feiticeiro, no decorrer da cerimônia, ao cravar agulhas em um boneco feito à imagem e semelhança da vítima – neste caso o promissor atacante do Santos –, faria com que o mulato paulista sentisse dores terríveis quando adentrasse a intermediária adversária e falhasse no momento do arremate fatal. “–– Sem este expediente sobrenatural, é bem capaz de o menino santista querer mostrar aos jornalistas europeus que já seria melhor do que o Messi...” – ameaçou-o. “–– Melhor do que o Messi nem o Maradona; aliás, nem o Pelé; porém, por via das dúvidas, pode confeccionar a criatura macabra para aniquilar o impávido Macunaíma moicano”.
Feito o arranjo macumbeiro com as onze galinhas pretas e o vodu, sentaram-se na tribuna de honra do Céu para assistirem ao lúgubre espetáculo. E de fato quando o menino prodígio da Vila Belmiro tentava arrancar em direção ao gol do Barça, com requintes de pura crueldade, se espetava um estoque nas pernas finas do ídolo franzino e abusado... “Dá-lhe, Pujol!... – se esgoelava o Galvão Bueno japonês. Bem, promessa cumprida, eis catastrófico resultado do massacre catalão contra a frágil equipe do arrogante Muricy Ramalho: Barcelona 4 X 0 Santos, com direito a dois golaços de Messi, suscitando um dos maiores vexames futebolísticos já presenciados por uma incrédula e atônita plateia: Olé, Peixe!...
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco
