Uma cimeira dita decisiva, que não foi
1. Regresso ao contacto com os leitores do Diário de Notíciasdepois de um interregno de quase quatro meses, em que estive obrigado, a par dos meus afazeres quotidianos, a acabar o meu último livro, segundo promessa feita à editora. Mas os meus artigos, apesar da gravidade da situação que vivemos, em Portugal e na União Europeia, vão passar a ser mais concisos e sintéticos do que no passado, por julgar ser melhor para os meus eventuais leitores e menos trabalhosos para mim.
2. O final da semana passada, com a cimeira dita decisiva, que teve lugar em Bruxelas, no dia 9, foi, creio, para a esmagadora maioria dos europeus que a seguiram, uma grande decepção. Por quê? Porque a crise do euro está longe de ser vencida — veremos como vão evoluir os mercados especulativos e as tão temidas e inaceitáveis agências de rating — e a desagregação da União, não ficou, inteiramente, fora de questão, apesar do afastamento do Reino Unido e a posição de isolamento do seu primeiro-ministro, David Cameron. Este, com a atitude que tomou, criou um grande alívio para os europeístas e uma situação mais ou menos difícil para os Estados-membros, até agora seus aliados: a Suécia, a Polônia, a República Checa, a Dinamarca, a Hungria, a Bulgária, a Letônia, a Lituânia e a Romênia. Sem esquecer a City...
A vencedora da cimeira parece ter sido, uma vez mais, a chanceler Merkel, com a teimosia e falta de visão que a caracterizam. Isto é: levou a sua avante, apesar das posições críticas crescentes que tem no interior do seu país e fora dele. Vide o Congresso do SPD, onde esteve, a acertar posições, o líder do PS francês, François Hollande, o comportamento político dos Verdes, e de alguns democratas cristãos, a sério, como Helmut Kohl. Nicolas Sarkozy, que se tornou uma espécie de ajudante da chanceler, perdeu em toda a linha, o que seguramente vai prejudicar a sua campanha eleitoral.
Resultado: ao Banco Central Europeu não foram conferidos os poderes que deveriam ter sido — o de emitir moeda, por exemplo — como a Reserva Federal americana, a City ou até o Japão; à Comissão Europeia e ao presidente da União, praticamente, ninguém os ouviu; e o Parlamento Europeu que, no plano institucional, representa o "Povo Europeu", podia e devia ter uma voz — e uma presença — nestas cimeiras, continua ignorado. E é pena porque lhe cumpriria defender o Projecto Europeu.
Tudo isto, por falta de coragem e capacidade dos protagonistas das diferentes instituições referidas, os quais, instalados no conforto dos seus rendosos lugares, são incapazes de arriscar qualquer opinião, a não ser de rotina. É uma tristeza! Assim, a cimeira do dia 9 foi, como todas as outras, um flop: muitas promessas, que se sabe não poderão ser cumpridas, e muito poucos passos para defender o euro e impedir a desagregação, a prazo, da União. Continuamos, assim, à beira do abismo, sem fazer nada de seguro para o evitar, como avisaram, entre tantos outros, Delors, Kohl, Schmidt... Será que a chanceler Merkel terá um plano próprio, que os outros Estados ignoram?
A única e grande novidade foi a saída do Reino Unido, dado que não foram satisfeitas — e ainda bem — as exigências de David Cameron e também o facto de ter ficado isolado dos seus antigos aliados do Grupo europeu, que até agora nunca tinham aceitado o euro. A Inglaterra deixou, assim, de ter "um pé na América e outro na Europa" — o que clarifica sem dúvida a sua posição — mas cria problemas sérios à City e, finalmente, deixa de empurrar o Projecto Europeu para uma Efta, em ponto grande, como sempre tentou fazer no passado.
Contudo, não se vê como a União Europeia e o euro vão sair do imbróglio em que os seus dirigentes se meteram e nos meteram a todos nós europeístas. Há valores fundamentais, como a solidariedade e a igualdade de todos os Estados, que estão a desaparecer paulatinamente. A justiça social — uma das grandes conquistas do pós-guerra — a pouco e pouco está a ser eliminada. E aos próprios direitos humanos acontece o mesmo. Os mercados especulativos continuam a corroer tudo — e a própria democracia — como tem vindo a avisar o grande filósofo Jürgen Habermas.
Está a tornar-se cada vez mais óbvio que sem uma ruptura a sério o abandono do neo-liberalismo e a regulação ética da globalização, a União Europeia e o euro vão entrar, inexoravelmente, numa profunda decadência, que nos atinge a todos, europeus e, indirectamente, o equilíbrio mundial.
Em meados de janeiro a Itália vai necessitar de um grande auxílio de muitos milhões de euros para poder pagar os juros da dívida. O Banco Central Europeu não está em condições de lhe valer. Quem o vai fazer? Com a falta de medidas responsáveis, a austeridade, por si só, não chega e, pelo contrário, estimula a recessão. Assim, a União Europeia não será capaz de salvar o euro. A menos que mude de paradigma.
A senhora Merkel, com as suas receitas, parece apenas querer ganhar tempo. Para ela, que tudo indica vai sair de cena, talvez seja útil. Mas para a Europa é uma catástrofe, ficando na história, como a principal responsável dos nossos males. Com que objetivo?
3. O outono russo está a parecer-se com a Primavera Árabe, que tem vindo a modificar a situação no Próximo Oriente e no Magrebe. Como assim? Porque os russos vieram para a rua, pacificamente, a reclamar liberdade, democracia e trabalho digno. E isso conta e impressiona, num povo de grande cultura e diferentes tradições.
Agora aconteceu na grande Rússia depois de umas eleições muito polêmicas e cuja imparcialidade foi negada. Os russos, de todos os partidos, apesar do frio, desceram às ruas das grandes cidades, até da Sibéria, a reclamar eleições livres e sérias e liberdade e democracia. Quem tal diria, depois de tantas décadas de ditadura comunista?
A nova comunicação social — dada a revolução informática que está em curso — vai mudando o mundo e as mentalidades em todos os continentes. As pessoas pensam pelas suas próprias cabeças, acreditam nos direitos humanos e vêm para a rua manifestar-se, sem medo. Parece que a hora dos tiranos passou. Oxalá assim seja.
4. O Centro Nacional de Cultura e a Fundação Gulbenkian promoveram, na passada semana, uma muito merecida homenagem ao ilustre agrõnomo, ambientalista e arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles. Tive a honra de participar nessa sessão memorável, em que estavam presentes muitos dos seus admiradores e amigos, e são imensos, de diferentes quadrantes políticos e ideológicos e, sobretudo, muitos ambientalistas.
Gonçalo Ribeiro Teles é uma personagem singular: uma figura profundamente respeitada pelo que fez, ao longo da vida, tendo sido o primeiro a chamar a atenção para a importância do ambiente, do ordenamento do território e do incremento da agricultura quando, em tempo de vacas gordas, se dizia que "a agricultura era para esquecer". É, igualmente, um cidadão exemplar, um homem livre, cheio de bom-senso e espírito patriótico, que, sendo monárquico, foi sempre um democrata e um lutador contra a ditadura. Foi, aliás, nessas lides — no tempo ainda de Salazar — que o conheci e nos tornamos amigos. E assim continuamos pela vida fora, tendo participado ambos no I Governo Provisório, após o 25 de Abril.
Os organizadores da homenagem promoveram a edição de um livro, que é uma fotobiografia lindíssima, muito variada, de Gonçalo Ribeiro Teles. Um livro que merece, por todas as razões, ser lido e meditado.
Mário Soares é ex-presidente de Portugal
