O calcanhar de Sócrates

Por Wander Lourenço

Soube-se que, com a chegada do Magrão ao reino dos Céus, o mestre Telê Santana sorriu zombeteiro para o herói grego Aquiles e disse aos querubins que saudassem o Doutor com sons de clarins, harpas, pandeiros, tamborins e alaúdes, pois que o firmamento ficaria mais festeiro e democrático com a intervenção intelectual do criador da comunhão evidenciada pelo trinômio bola-política-calcanhar!... Entretanto, o fato é que o magnífico ex-treinador da Seleção Brasileira poderia, enfim, compor o mais magistral meio de campo de todos os tempos, que sempre arquitetou desde que aportara por estas longínquas paragens divinas — Didi, Sócrates e Zizinho — de modo que, com maestria e engenho, pudessem municiar um certo Mané das pernas tortas.

Esta combinação de estrelas póstumas, sem dúvida, seria ainda melhor do que aquela meia-cancha da década de 80, formada com Falcão, Cerezo e Zico. O inveterado boêmio Garrincha, por sinal, fora o escolhido de São Pedro para recepcionar o rebelde e idealista jogador do Corinthians, Fiorentina, Flamengo e Santos, com a tradicional fita verde e amarela a prender as revoltosas madeixas negras. Logo que se apercebera de sua entrada triunfal com a faixa de campeão brasileiro, porém, Mané Garrincha, sem cerimônia ou rito, o convidara para tomar uns tragos num botequim de esquina localizado numa espécie de Boca do Lixo do inferno, em fecunda e etílica companhia de Adoniran Barbosa, Plínio Marcos e Oswald de Andrade.

Assim que encostou o umbigo no balcão para pedir uma cerveja gelada com pastel, o Magro avistou o escritor Armando Nogueira, em conspiratória e inédita parceria com Nelson Rodrigues, a rascunhar às pressas um artigo para edição do Jornal do Brasil Up, sobre a precoce partida de um gênio irrequieto e inconformado, que se equilibrara por sobre dois magistrais calcanhares que, quiçá, o impulsionaram à categoria de mais do que um ídolo, a de mito do Parque São Jorge. Decerto o escrito dedicado ao sujeito de corpo e ideias antiatléticas, com a assinatura destes sublimes admiradores de arquibancada, me impeliria, na condição de cronista aprendiz, a registrar as impressões que, na Copa da Espanha, em 1982, tanto impressionaram aquele moleque de doze anos que eu era, com uma refinada movimentação artística, que demonstrava rara inteligência tática e talento futebolístico.     

Enquanto confabulava como escrever a homenagem ao mentor da democracia corintiana em plena ditadura militar, eis que surgiu o professor Telê Santana, com a sua comissão técnica composta pela saudosa excelência do auxiliar técnico, Claudio Coutinho; pela sobriedade científica do ortopedista Lídio Toledo; pelo compromisso pátrio do preparador físico Admildo Chirol; pela magia lendária do massagista Pai Santana; e pelo carisma do folclórico roupeiro Ximbica. Apito dependurado no peito e uma prancheta na mão, Telê sentou-se com o seu séquito de auxiliares, pediu uma média com torradas e ocupou-se em desenhar uma ou duas estratégias para vencer o próximo jogo contra a Argentina do imortal Di Stéfano.

Ainda que ressentido dos desfalques ocasionados pelas ausências de Nilton Santos e Pelé que, se Deus quiser – e como se sabe de cor e salteado, por ser brasileiro nato de São Sebastião do Rio de Janeiro, há de vislumbrar uma longa e gloriosa existência aos dois gênios das quatro linhas! –, teimariam por mais alguns bons anos a adiar o fatídico embarque post mortem para o Paraíso dos Deuses do Futebol.  No comando do ataque do selecionado celeste do Brasil, o treinador do excrete nacional almejou um revezamento entre Ademir Queixada e Vavá.

Na lateral esquerda, sem outra opção o técnico escalou tricampeão mundial Everaldo, apenas até o Enciclopédia resolver carimbar o passaporte para o Além e estrear com a camisa 6 na equipe idealizada por Telê Santana. Logo, por enquanto, o time-base seria Barbosa, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Everaldo; Didi, Sócrates e Zizinho; Dener (Heleno de Freitas), Vavá (Ademir) e Garrincha.  

Por fim, a comissão técnica, por votação e debate, deliberou que, apesar de ser o mais jovem da constelação futebolística, a braçadeira de capitão seria mesmo carregada pelo Doutor Sócrates que, qual um Aquiles às avessas em sua idílica Tróia, conforme escreveria Nelson Rodrigues ou Homero, fez do fantástico calcanhar a sua frutífera arma de guerra, a sua exemplar poesia de vida.

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’.wanderlourenco