Primavera Árabe e Advento
Quanto ao calendário, ainda estamos na primavera. Apenas no final de dezembro ela cederá lugar ao terrível verão tropical, que faz suar e gemer sob sol inclemente e altíssimas temperaturas. E justamente, porque enquanto estação do ano, a primavera é aquela que apresenta temperatura amena, estendendo-se de setembro a dezembro, foi logo identificada com tudo que é recomeço, renovação, renascer.
Por isso, em sentido figurado primavera é época primeira, tempo primordial, aurora. Aplicada às pessoas, a categoria de primavera quer designar alguém muito jovem, que é ainda promessa de um desabrochar ou de futura plenitude. Alguém que já mostra o que será mas ainda não o visibiliza plenamente. Esta é a razão de a infância e a juventude serem designadas como a primavera da vida.
Entende-se, portanto, por que os protestos que eclodiram no mundo árabe a partir de 2010 e que até hoje permanecem foram batizados de Primavera Árabe. Iniciando-se na Tunísia, em 18 de dezembro de 2010, o movimento rapidamente se espalhou pelo norte da África e também pelo Oriente Médio, encontrando talvez sua manifestação mais forte, além da própria Tunísia, no Egito e na Líbia.
Ali, naqueles dois países, foram derrubados regimes de exceção que pareciam até então muralhas inexpugnáveis. Dentre os três chefes de Estado assim removidos do poder, o tunisino Bem Ali fugiu, o egípcio Mubarak renunciou e o terceiro, Kadafi,foi capturado, torturado por rebeldes, arrastado por carreta em público e executado com um tiro na cabeça.
Os protestos tomaram diversas formas e utilizaram diversas técnicas, como greves, manifestações, passeatas, resistência civil em campanhas reivindicatórias e comícios. As mídias sociais como o Facebook, Twitter, YouTube foram largamente usadas para apoiar a movimentação e convocar a população, informando-a e sensibilizando-a a fim de que não se deixasse enganar ou envolver pelo que os Estados objeto dos protestos espalhavam pela mídia: censura e desinformação.
À queda dos três chefes de Estado seguiu-se uma onda de anúncios da queda do poder de outros governantes: no Iêmen, no Sudão, no Iraque, na Jordânia. É, inegavelmente, o fim de uma era e de uma forma de organização política que tem como consequência uma renovação profunda naquela parte do mundo onde proliferavam os regimes fortes e autocráticos.
A Primavera Árabe é a primeira revolução democrática acontecida no mundo árabe no século em que vivemos. Ao fundo, a insatisfação de povos que cansaram de ser oprimidos, manipulados e injustiçados pela pobreza, desemprego, falta de liberdade e alta militarização de suas forças vivas. Revela-se igualmente o cansaço desses povos de verem suas nações dependentes de potências estrangeiras que, com a conivência de seus governantes, ditavam a agenda e as prioridades para seu duro cotidiano.
Esses regimes, nascidos do nacionalismo árabe entre os anos 1950 e 1970, converteram-se em governos repressores que impediam a oposição política sadia e democrática. E igualmente apossavam-se de todo o benefício das economias em crescimento, negando-se a distribuir seus frutos à população. Assim, abriram um vácuo de participação, que foi sendo preenchido pelas lideranças e movimentos sociais que temos visto à frente da Primavera Árabe nos últimos tempos.
Os protagonistas deste primaveril movimento são jovens, e isso chama a atenção. Não em vão os protestos do Egito receberam o nome de Revolução da Juventude. Além disso e por isso, são informados, bem formados, e muitos têm estudos universitários. Sabem usar as redes sociais e comprovam, com o sucesso e a rápida difusão de seu movimento, que realmente o mundo tornou-se plano com a chegada da internet e a comunicação em rede. É o novo que chega ao mundo árabe e, embora infelizmente com um importante saldo de violência e morte, traz vento e perfume libertador. Por isso, o tempo litúrgico do Advento, vivido hoje pela Igreja Católica, é uma chave de leitura importante para iluminar nossa reflexão e vivência. Advento é aparecimento, chegada de alguém ou de algo. É algo que começa, se institui, rompe o estabelecido e traz um novo estado de coisas.
Por isso, a Igreja chama de Advento o período de quatro semanas que antecedem o Natal, destinado à preparação espiritual e à purificação de seus fiéis para a vinda do Salvador, que libertará o povo de suas cadeias e lhe trará a Boa Notícia da vida em plenitude. Enquanto o Ocidente volta os olhos surpresos para o mundo árabe que vive sua primavera libertadora, os cristãos celebram o Advento do Messias esperado e levantam a cabeça com alegre esperança. A chegada do Sol Invicto, festa pagã que foi relida pelo cristianismo, será o apogeu desta primavera adventícia que prepara a celebração da liberdade.
Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Simone Weil - A força e a fraqueza do amor' (Ed. Rocco)
