Vontade política
Escrevo essas linhas enquanto as favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu são “libertadas” da ditadura explícita do narcotráfico. Na mesma Rocinha será implantada a décima nona unidade de polícia pacificadora, e assim mais um trecho da cidade do Rio de Janeiro volta ao controle do poder público. Se isso vai dar certo nestas três favelas como nas demais já “pacificadas”, só o tempo dirá, mas com certeza, dez ou vinte anos atrás, essa situação de retomada de grandes espaços físicos da cidade dominados por poderes paralelos, transversais, oblíquos, era impensável, diante da corrupção e promiscuidade que existia explicitamente entre poder público e os traficantes. Destaca-se que a tal promiscuidade continua e irá continuar ainda por muito tempo, ou talvez nunca acabe, mas ao menos com um grau menor de “escancaração” e de certeza absoluta na impunidade, pois um dia a “casa caiu”.
Mas, afinal, o que pacificação e a retomada de territórios têm a ver com meio ambiente? Tudo, pois simplesmente tanto um como outro dependem da bendita, oscilante, vacilante e quase sempre ausente vontade política.
Essa historinha de que não tem dinheiro, não cola mais. Tem dinheiro, sim, e muito, visto os dados que a cada escândalo brotam às centenas de milhões de reais veiculados para ONGs pilantras associadas a quadrilhas, isto é, partidos políticos e ou ministros pilantras, que fazem de seus cargos pontes para o dinheiro fácil do poder público. Tem sido assim há quinhentos anos, e a festa da roubalheira apenas não acaba de vez com o país devido à obrigação fisiológica de os políticos dormirem, o que dá tempo para o país se recuperar à noite da pilhagem do dia anterior.
Pois bem, em 2012 teremos a Eco+20 em que a cidade do Rio de Janeiro poderá mostrar ao mundo qual é o resultado de muita conversa, seminários sem fim, muito dinheiro jogado em projetos, que só fizeram enriquecer os amigos do poder, pois ambientalmente falando continuamos patinando em fezes, lixo e crescimento desordenado. No entanto, os grandes eventos internacionais esportivos fizeram a vontade política surgir com toda a força em nossa cidade, até porque nenhum administrador público vai querer ficar mal na foto, numa cidade abandonada à própria sorte, o que poderia comprometer seus sonhos para chegar ao tão desejado posto de chefe da nação. Portanto, independentemente do motivo que faça os políticos trabalharem em favor da cidade e de seus colonos, vivemos um momento único em nossa cidade.
Não tenho a menor dúvida de que, se não for nos próximos cinco anos, a fatura ambiental mais do que vencida nunca mais será paga nesta cidade. Para tanto dou pela enésima vez uma dica do que deve ser feito para que num prazo de quatro anos consigamos reverter as consequências e neutralizar a exportação do passivo ambiental das bacias hidrográfica transformadas em valões de esgoto e lixo para lagoas e para baía:
Baixada de Jacarepaguá – Sistema lagunar da baixada de Jacarepaguá
1 - Instalação de mais quatro unidades de tratamento de rios, nos atuais valões de esgoto do canal do Anil, Rio das Pedras, Arroio Pavuna e Pavuninha. Dessa forma eliminaríamos o aporte de lixo, esgoto e sedimentos para o sistema lagunar da baixada. Custo estimado: R$ 160 milhões. Cronograma para resultados práticos: 18 meses.
2 - Dragagem do sistema lagunar, principalmente na laguna da Tijuca, hoje transformada num canal raso de esgoto cercado por ilhas de lama e lixo. Com a dragagem, criaríamos novamente uma renovação eficiente entre o sistema lagunar e o mar, aumentando a capacidade de recuperação do sistema. Custo estimado: R$ 540 milhões. Cronograma para resultados práticos: 36 meses.
3 - Recuperação das áreas de manguezais transformados em lixões pelo aporte de resíduos. Custo estimado: R$ 4 milhões. Cronograma para resultados práticos: 48 meses.
Baía de Guanabara
1 - Instalação de cinco unidades de tratamento de rios, nos atuais valões de esgoto do Canal do Cunha, rios Irajá, São João de Meriti, Sarapuí-Iguaçu e Guaxindiba. Dessa forma eliminaríamos o aporte de lixo, esgoto e sedimentos para a Baía de Guanabara. Custo estimado: R$ 250 milhões. Cronograma para resultados práticos: 18 meses.
2 - Recuperação das áreas de manguezais transformados em lixões pelo aporte de resíduos. Custo estimado: R$ 18 milhões. Cronograma para resultados práticos: 48 meses.
Some-se a essas medidas a continuação dos esforços bancados com recursos do Fecam, da instalação de troncos coletores, elevatórias e colocação em funcionamento estações de tratamento inauguradas há mais de uma década, mas que nunca viram uma gota de esgoto sequer, como de resultados consistentes nas políticas de habitação e transporte.
Não tenho dúvidas de que, tomadas essas medidas, estaríamos de fato gerando resultados ambientais palpáveis, não para daqui a dez, vinte anos, como sempre acontece com projetos governamentais, em que sempre é preciso acreditar em reencarnação para que algum dia, quem sabe, vermos algo melhorar com toda a grana utilizada em projetos que não chegam a lugar nenhum.
Não esqueçamos que o quadro caótico hoje encontrado na baía de Guanabara nos custou, enquanto contribuintes, a bagatela de UM BILHÃO E MEIO DE DÓLARES, com resultados ambientais que beiram o ridículo no país dos espertalhões e dos bundas-moles. Nessa história, muito político pilantra e muito empresário colega devem ter ficado milionários, mas remexer esse assunto e buscar culpados é considerado revanchismo, perseguição, e acaba prevalecendo a turma do deixa-disso, que também tem seu rabo preso no passado. Como digo, dinheiro público no Bra$il-$il é lixo, vem muito fácil pelo confisco diário dos impostos e desaparece fácil com a certeza da impunidade.
Também não posso deixar de lembrar, e fazer todos lembrarem, do mimo surdo e mudo chamado Cidade da Música, deixado pelo senhor Cesar Maia — que, até 2011, só consumindo recursos municipais, coisa de subestimados MEIO BILHÃO DE REAIS, não havia gerado qualquer benefício para a cidade e seus moradores a não ser para os “mesmos” que se beneficiaram daquele paquiderme de concreto.
Em resumo, dinheiro tem de sobra, só não roubar e desviar demais. Tecnologia não há de faltar, e tempo está aí na marca da penalidade máxima. A vontade política natimorta, quando o assunto é resultado prático num prazo de tempo aceitável, também se vê obrigada a dar as caras, visto que os eventos estão na cara de todos. Portanto, se não conseguirmos os resultados ambientais esperados, é porque mais uma vez o que falou mais alto foram as obras superfaturadas, os desvios, os eternos aditivos contratuais para obras inacabadas ou mal-acabadas e a mais do que completa falta de vontade da sociedade em cobrar eficiência de um poder que nasceu descansado por natureza, mas que, no caso da pacificação e retomada de favelas, mostra que, quando quer, pode fazer a diferença.
É isso que se espera no meio ambiente: diferença de tudo que se pagou caro e não se viu até hoje!
* Mario Moscatelli é biólogo.
