Resposta complexa

Por TARCISIO PADILHA JUNIOR

        Por ocasião de A montanha mágica (1924), Thomas Mann afirmou que “o homem é o eterno mistério para si mesmo”. O que antes da guerra ainda deveria ter sido uma novela tomou a forma de um romance monumental para recontar o mito do graal. Bem alto numa montanha, Monsalvat é um sanatório, onde os pacientes perdem toda a percepção do tempo. Lá chegando para ficar por três meses, um jovem acabará permanecendo sete anos. Nesse tempo, ele precisa fazer com que Percival, o buscador do graal, que está doente, compreenda algo da vida.

        Para isso, o jovem se depara com Settembrini, Nafta e Peeperkorn. O primeiro representa a iluminação e a fé na bondade humana, está profundamente convencido de que as belas-artes hão de estimular os seres humanos no caminho das boas ações. O segundo é o seu antagonista; prefere os lados sombrios, considera que a salvação está exclusivamente na obediência cega e na violência. O terceiro, uma pessoa descomplicada, ao ver o seu estado agravado, acaba se suicidando.

        O que esse “maluco inocente” aprende da vida em sua estada na montanha mágica? Ele aprende um humanismo que tem conhecimento da fragilidade e das limitações da condição humana. Doença e morte oferecem uma compreensão mais profunda das vicissitudes da existência humana do que a razão aponta. O conhecimento procede de um olhar atento e sistemático na direção adequada. A racionalização crescente do nosso mundo não significa um crescente conhecimento geral das condições comuns de nossa existência. Em verdade, as tentativas de conduzir uma investigação racional de tais condições conhecem uma inevitável derrota.

        Tendo perdido a ilusão de uma solução política capaz de tornar a multiplicidade dos destinos humanos uma comunidade, o indivíduo faz hoje da urgência e do sofrimento os princípios motores de suas ações.Criar solidariedades concretas, num mundo onde tudo tem uma função mas carece de sentido, é um meio de escapar da conversa insuportável entre o indivíduo solitário e uma globalidade que ele não domina, porém não tem condições de ignorar.

        Há que reconhecer as exigências que lhe podem ser adequadamente dirigidas numa dada situação. Reconhecer os atributos de uma situação é sempre uma resposta complexa de toda a personalidade - como fazê-lo quem vive a toda pressa?

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro