O bagaço da canalha
No tocante à expressão que intitula a crônica, involuntariamente João do Rio emprestou-ma, para iniciar uma delicada temática humanitária – a prostituição infantil por usuários de crack nas grandes metrópoles brasileiras. Nos primórdios do século 20, as personagens de aproximada estirpe se denominavam “cancros sociais”; todavia, constata-se que, nos tempos contemporâneos, aos inócuos contaminados por drogas ilícitas suprimiram-lhes a identificação nominal, alcunhando-os dos Zumbis urbanos.
Condenados, qual um fantasma alucinado inserido num conto de fadas, a torpe juventude debate-se pelo sustento do vício de entorpecentes por becos e alcovas, por intermédio do pútrido comércio de um corpo infanto-juvenil drogado e prostituído. Destarte, assevera-se que deste vício se faz ofício; e, desta vergonhosa labutação, se alicerça o aprisionamento de um espírito na plenitude da infância perdida em castelos de areia e alcouce. Em verdade, são mortos-vivos sorumbáticos, que se oferecem por breves instantes de luxúria aos traficantes de almas, que usufruem de uma carne mutilada menos pelas drogas do que por omissão e insensibilidade dos poderosos membros do bagaço da canalha politiqueira que assola a nação de Norte a Sul.
Em todo o país, os abrigos para menores infratores ou não são depósitos de indigência e promiscuidade, de cujos cômodos ou cárceres se fabricam deliquência destas molduras marginalizadas, incautos sobreviventes por mendicância ou prostituição infantil. Ora, no entanto, o que importaria às autoridades tupiniquins se a infância destes indóceis antisseres drogados vem a ser extirpada por danos e efeitos forjados pela abordagem a transeuntes ou vida fácil de deploráveis cortesãs? Não se pode mais apenas apontar que a desgraça destes jovens destroçados se perpetua pelo desvio de verbas públicas provenientes da saúde, educação, transporte e turismo.
É preciso ação para coibir o fruto de uma congênita e insalubre corrupção especializada em desviar dinheiro para os cofres das personalidades pátrias detentoras dos pareceres desta republiqueta ao sul do Equador. Cabe salientar que poder-se-ia até propor aos relapsos e incompetentes mandatários desta inglória nação que, com mais sobriedade e rigor judicial, se revisse a Carta Magna referente às penalidades oriundas de crime de lesa-pátria e profanação do patrimônio nacional... E sugerir que se construíssem presídios federais – um centro penitenciário batizado com a alcunha de Corruptela –, que abrigassem a corja de sequestradores do erário público, em alçapões de segurança máxima vigiados por câmeras e sentinelas. Ou mesmo até insinuar que as riquezas adquiridas por força de falcatruas fossem devolvidas ao Estado pelo triplo do valor roubado até a terceira geração dos habilidosos e exímios condutores de licitações fraudulentas...
Mas como dialogar com os Poderes Executivo, Legislativo ou Judiciário se de seus porões e cavernas sangram libidinosas gorjetas e sórdidos obséquios que, imoralmente, silenciam alguns senadores, prefeitos, juízes, deputados e desembargadores – justamente aqueles que deveriam ser os responsáveis pelo pleito de ordem parlamentar em consonância com a implacável sentença de lei, toga e martelo? De outra feita, quiçá seja de bom alvitre dizer que a sociedade deveria se preocupar com quimeras de infâncias roubadas pela insensibilidade de uma autoridade municipal ou estadual. É preciso, por conseguinte, tocar nesta questão, mesmo quando o Brasil se embaralha por cartas marcadas de um jogo de hipocrisia e repugnância, cujos tentáculos se enraizaram no seio de uma pré-adolescente de má vida, sem perspectivas outras que não sejam a de adquirir a substância química, que aniquila a sua ignóbil existência de marafona viciada.
Enfim, nesta Cracolândia tropical o moinho de vento se move conforme se a Pátria Mãe Gentil também se prostituísse, ao passo que os governantes deste Éden Brasilis se drogassem debruçados por sobre o corpo inerte de uma criança de 13 anos, vítima inocente de uma clientela que, solenemente, adormece sem a lembrança da frase que, sutil e faceira, entrecortara o ilustre rastro político de Sólon: “Tio, só cinco real a saliência, pra se comprar uma pedra de crack”.
Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e de ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco
