A inenarrável peleja entre Chaplin e Garrincha
Em crônica intitulada As religiões do Rio, o jornalista Paulo Barreto registra que nesta cidade paira um misterioso sentimento, espécie de um desconhecido avassalador oriundo das forças do Susto. Confesso que fui obrigado a concordar com o mestre João do Rio, pois que não queiram saber qual não foi o assombro que eu tivera quando despertei com o tricolor Nelson Rodrigues aos berros a exaltar “O jogo do século!...”. Dito isto, pus-me a psicografar uma crônica sobre o ocorrido na noite de 27 de julho de 2011, entre um clube da antiga capital da República, o Flamengo, e o eterno Santos de Pelé, o monarca.
Com certo atraso justificado pelo tempo de viagem, o anjo pornográfico narrou-me a peleja travada entre dois gênios da irreverência, Charles Chaplin e Mané Garrincha que, na referida data, aportaram no Estádio da Vila Belmiro com o intuito de magistral interferência, em jogo disputado pela décima segunda rodada do Campeonato Brasileiro de futebol. Os peraltas decidiram que entrariam em campo para atuar um em cada time e apostaram que quem perdesse o jogo pagaria a cerveja e tira-gosto do botequim. Por ser de Magé, Garrincha optou por defender as cores rubro-negras, reencarnando-se no espírito de Ronaldinho Gaúcho.
Por outro lado, Charles Chaplin apoderou-se, por leviano empréstimo, da habilidade de Neymar. No aquecimento, os astros indomáveis demonstravam desinteresse pela fastidiosa preleção dos treinadores Muricy Ramalho e Wanderley Luxemburgo. Após o apito inicial, o invicto Flamengo de Léo Moura e Thiago Neves, negligente e desatento, sofreu com o massacre santista liderado por Chaplin – 3 a 0 –, com uma meia-bicicleta e um gol de placa de Neymar; digo, Carlitos, ao ludibriar o zagueiro adversário Ronaldo Angelim. Todavia, com reação magistral do eterno ídolo do General Severiano, um endiabrado Mané das pernas tortas, o time da Gávea empatou ainda no primeiro tempo da antológica partida, com gol de cabeça do atacante Deivid. Isto, sem mencionar mais um pênalti perdido por um displicente Elano, que, para ele, tanto faz se for Copa América ou Brasileirão.
Logo nos primeiros minutos do segundo tempo, o vagabundo de chapéu-coco penetrou pela esquerda, ganhou na velocidade do defensor e completou a bela jogada com categoria ao arremessar a bola placidamente no ângulo do eficiente goleiro Felipe. Resultado: Santos 4 X 3 Flamengo. Em contrapartida, o incansável Garrincha partiu para cima da defesa adversária, driblou um, dois, três... “Falta de Arouca no Gauchinho junto à linha da grande área do clube do litoral paulista!”. Neste episódio, houve uma curiosa combinação entre o camisa 10 e Mané que, por inabilidade e falta de treinamento, disse ao ex-craque do Barcelona que cobrasse a falta por debaixo da barreira, uma vez que ouvira o Carlitos combinar com os jogadores da barreira que, por malandragem, se adiantassem e saltassem no momento do chute a gol. Dito e feito, enquanto Ganso, Borges e Edu Dracena se esforçavam para receptar a cobrança, Ronaldo, apossado pela irresponsável lucidez de um boêmio craque de futebol, rolou a bola sem força para o fundo das redes do goleiro Rafael, empatando com genialidade a sensacional batalha. A Mané Garrincha, só coube a função de coadjuvante do ex-gremista.
O malabarista Neymar ainda tentou se desvencilhar da sombra de Chaplin, sacudindo-se impávido pela extrema esquerda do gramado em direção à meta rival; entanto, a noite era de um certo Mané em disfarces de Ronaldinho Gaúcho que, ao deslocar-se para o outro lado do campo, recebeu bola limpa de Thiago Neves, que o deixou livre para marcar colocado, após contra-ataque rubro-negro o último e redentor gol da espetacular virada: Flamengo 5 X 4 Santos!
Enfim, o teatrólogo Nelson Rodrigues ditou-me que, após a comemoração numa churrascaria da Baixada Santista, com a diretoria, comissão técnica e elenco do Clube de Regatas Flamengo, um tanto quanto embriagado, mestre Garrincha, a caminho do céu, deparou-se com um Chaplin entristecido e inconsolável, mas que ainda assim o convidara para um último trago num botequim do inferno, em invejável companhia de João Saldanha e Oldemário Touguinhó.
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e de ‘O enigma Diadorim’
