Dia dos Pais x Infertilidade: uma dor silenciosa
A dor vivenciada pelo homem com dificuldades para ter um filho é muito pouco abordada e, até mesmo, pouco reconhecida pela sociedade, uma vez que o foco deste problema, na maioria das vezes, fica em torno das mulheres, que se permitem expressar seus sentimentos e pensamentos a respeito desse assunto, com maior liberdade. No entanto, embora os homens pouco falem a respeito do que sentem, isso não significa que nada sintam. Algumas mulheres, inclusive, chegam a se incomodar com tal fato, acreditando que sofrem sozinhas “os problemas da infertilidade”, já que seus maridos pouco demonstram neste sentido.
Há anos atendendo casais com problemas de infertilidade, percebo que os homens sofrem tanto quanto suas companheiras com esse acontecimento. Muitas vezes, se pegam fazendo cálculos sobre o dia de ovulação da esposa e aguardam, todo mês, ansiosamente, por um resultado diferente da menstruação, no final do ciclo feminino.
Além disso, os homens também sonham com seus “bebês imaginários” e com coisas que poderiam fazer ou ensinar a eles. Porém, tudo isso é vivenciado em meio a um certo silêncio masculino, já que em nossa sociedade “homem não chora” e tampouco pode demonstrar fragilidade, uma vez que essa última pode ser sinônimo de fraqueza.
É preciso ser forte?
O fato de as mulheres demonstrarem seus sentimentos e passarem por tratamentos, muitas vezes dolorosos, em busca do filho, faz com que o homem se sinta ainda mais inibido em dar vazão ao que sente, já que alguém precisa ser forte para não piorar ainda mais toda a situação. O sentimento de impotência é também bastante comum entre estes homens, pois eles se sentem impotentes por não conseguirem engravidar suas mulheres nem controlar esse acontecimento, uma vez que a gravidez e tudo o que a envolve não ocorrem no seu corpo.
Tendo em vista todos esses aspectos, é de se imaginar o quão difícil acaba sendo para este homem a proximidade do Dia dos Pais. Para os que buscam por um filho, essa data passa a ter um significado muito diferente daquele quando ele apenas era filho. O desejo de paternidade dói enquanto não se vê satisfeito. No entanto, é ele a válvula motriz que impulsiona essa busca, até o dia de sua concretização e da escuta da tão esperada pronúncia: “pai”.
Luciana Leis, psicóloga, é especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade
