Petróleo e aço: cada um em seu setor

Por Humberto Viana Guimarães

Um assunto tornou-se recorrente no Brasil: algumas empresas atuam fora da sua área de negócio – mais conhecida pela expressão em inglês core business –, principalmente aquelas que têm influência direta ou indireta do governo federal. No primeiro caso, inclui-se a Petrobras e no segundo, a mineradora Vale.

No caso da Petrobras, o governo insiste em que a estatal passe a ser produtora e reguladora no abastecimento de etanol e construa termoelétricas. Sugiro aos neófitos que atuam no setor energético que leiam a Lei nº 2.004, de 3 de outubro de 1953, capítulo III “Da sociedade por ações Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras) e suas subsidiárias”, Seção I “Da Constituição da Petrobrás”, onde, no artigo 6º, estão bem definidos os objetivos da estatal: “A Petróleo Brasileiro S. A. terá por objeto a pesquisa, a lavra, a refinação, o comércio e o transporte do petróleo proveniente de poço ou de xisto – de seus derivados bem como de quaisquer atividades correlatas ou afins” (adotei a grafia original “Petrobrás” em respeito ao texto original da lei publicada no DOU de 3/10/1953).

A lei é clara, o negócio da Petrobras é petróleo. Assim, as autoridades devem deixar de lado o seu viés intervencionista em um setor que não é o seu e focar naquilo que de fato interessa ao país e para o qual a Petrobras foi criada.

Assistimos a um verdadeiro boom no setor petrolífero após as descobertas no pré-sal que, se confirmadas, colocarão o Brasil entre os mais produtores de petróleo do mundo. Assim, é mister que a Petrobras cumpra o seu core business e invista, não em etanol e termoelétricas, e sim em refinarias para que evitemos não só os gastos bilionários em importações de derivados (o que acontece atualmente e que desequilibra a conta-petróleo) como, também, sejamos grandes exportadores destes produtos.

No caso da mineradora Vale, a insistência das autoridades é que a empresa não só produza e exporte minérios, como também construa siderúrgicas. A empresa até pode participar de algum empreendimento no setor de siderurgia e em outros, mas sempre com uma pequena participação acionária (como o caso da UHE Belo Monte e a Companhia Siderúrgica do Atlântico). À Vale cabe produzir e vender cada vez mais minério. Às siderúrgicas cabe a produção de aço e não a mineração, como algumas estão fazendo.

Nesse sentido, em função do desvio de negócio de algumas siderúrgicas brasileiras, faz-se necessária uma análise profunda da evolução do setor siderúrgico nacional em relação aos demais países componentes do BRICs, entre 1992 e 2010 (fonte: WSA). Sigamos a ordem da sigla. No que se refere ao Brasil, no período citado crescemos somente 37,07%; em 1992 produzimos 23,898 milhões de toneladas (mt); e em 2010, 32,758 mt. A Rússia teve crescimento negativo de 0,06%; 67,003 mt em 92 e 66,964 mt, em 2010. A Índia está surpreendendo cada vez mais, cresceu 266,73% no período. Em 92 produziu 18,100 mt e em 2010, 66,379 mt. Interessante observar que em 92 a Índia produziu 24,26% menos que o Brasil e em 2010, o dobro! Por último, a China dispensa maiores comentários como resultado do seu fenomenal crescimento de 682,76%. Em 1992, produziu 80,037 mt (menos que o Japão, que era então a grande locomotiva mundial) e em 2010 chegou a 626,497 mt.

Não vou fazer comparações com a China devido às suas peculiaridades. Mas, um fato é concreto: não obstante alguns novos empreendimentos, de um modo geral, o nosso setor siderúrgico está meio estagnado e necessita, urgentemente, fazer investimentos de monta. No ranking das 46 maiores empresas produtoras de aço a nível mundial divulgado pela World Steel Association (Associação Mundial de Aço), referente a 2010, temos somente três empresas brasileiras, a saber: a) Gerdau em 10º lugar, com 18,7 milhões de toneladas; b) Usiminas, 30º com 7,3 mt; c) CSN, 37º com 5,5 mt. (As três subiram três pontos em relação a 2009). Se o setor não reagir, correremos o sério risco de sermos “engolidos” por concorrentes estrangeiros.

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor