Artigo - O discurso que falta (II)

Por  Sérgio Paulo Muniz Costa *

 Por existir na história uma quantidade infinita de atores, fatos e perspectivas, dificilmente um acontecimento do passado chegará até nós de uma só forma. Isso é bom, na medida em que a diversidade de interpretações leve a uma melhor compreensão do acontecimento em si. Por outro lado, pode parecer desalentador que nada tenha acontecido como a história registra. Então, para quê ela serve?

História é política, e, se não bastasse para tanto lembrar que é ação, “a condição humana da pluralidade” que “cria a condição para a lembrança, ou seja, para a história” (Arendt), nunca é demais registrar que “a história sempre esteve ligada aos poderes” (Dosse). Os homens necessitam de organização política para existir, e ela se faz a partir de uma memória comum, tão forte quanto as visões que for capaz de abrigar, tão real quanto o poder que o seu discurso legitimar.

O Brasil, como unidade política e social, tem história e precisa continuar a fazer história, a sua história. Uma teoria da história pode propor que ela é discurso e modelo, ou que é proteica, mudando constantemente nas suas formas e métodos, ou que ela tem função educacional, ou que, mesmo sem leis, tem princípios e consensos que a norteiam, seja como disciplina, seja como conhecimento articulado com as outras ciências, na verdade, um pouco e tudo disso. O que não pode faltar é a dimensão política da história na compreensão e sustentação do país, algo que não diz respeito apenas aos historiadores, mas a toda sociedade.

O quanto os brasileiros entendem que o tamanho e pujança de seu país não são decorrentes de uma benesse divina ou da natureza mas, sim, de muito esforço, lutas e sacrifícios, com avanços e recuos, sucessos e reveses, que custaram vidas, patrimônios, carreiras, tudo por vezes, de tantos?  E o quanto compreendem que o seu futuro, como pessoas, é, em última análise, indissociável do destino do país, não importa sua pobreza, riqueza, poder ou condição social?

A grande maioria da população está às voltas com a luta diária pela sobrevivência, com limitadas condições de saber e refletir sobre a realidade nacional. A pequena elite — cuja denominação parece ter perdido o sentido em todo estamento funcional – está ocupada em seus jogos de poder e ganhos, incapaz de mobilizar pela ação, no sentido arendtiano do termo, a sociedade em torno de um projeto de desenvolvimento que supere as suas contradições e limitações.

Nas relações intrassociais, um multiculturalismo alienado e alienante, tocado a ideologia e oportunismo, impõe clivagens estranhas à nossa cultura. Na economia, conforma-se o país à condição de exportador de matérias-primas e commodities que cabe em qualquer sigla da moda forjada longe daqui. Na defesa, imanente à soberania, submetem-se as Forças Armadas ao desprestígio, à negação de meios e à politização do setor. Na política, a imagem das instituições se deteriora perante a sociedade, em todos os poderes. Tudo isso, e muito mais, temperado com ironia, cinismo e apatia.

Agir para reverter esse quadro é possível e necessário. Agir é o pensar e o falar de muitas inteligências e vozes, sem as ambiguidades que sempre impõem o seu custo. Há três gerações e três repúblicas, o Brasil iniciou seu esforço para se desenvolver, enfrentando crises, mas sempre reiterando seu compromisso com a democracia. A história não se repete, mas deixa lições.

O Brasil ainda não encontrou o discurso à sua altura.

* Sérgio Paulo Muniz Costa, historiador, é membro do CPE da UFJF, pesquisador de Segurança e Defesa do Cebri e responsável pela Clio Consultoria Histórica. Foi delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.