Internet com limites

Por Aristóteles Drummond

Vivemos uma era extraordinária em termos de comunicação com a democratização da internet, as redes sociais, a difusão da cultura, da liberdade de opinião e da informação em tempo integral. A mídia eletrônica é hoje uma realidade internacional e mudará o mundo editorial em mais algum tempo. Está na hora de uma regulamentação internacional de seu uso, especialmente sob o ponto de vista da ética, da transparência e dos chamados bons costumes.

A pornografia já vem sendo controlada  com certo êxito, assim como o uso fraudento em relação a compras pela via eletrônica. Logo, não seria nada difícil acabar-se com mensagens sem remetente, inibir os sites, inclusive os da mídia, de publicarem conceitos e opiniões  ocultas pelo anonimato, por melhores que sejam. Mas o objetivo seria o respeito ao cidadão, às autoridades e especialmente ao leitor  honesto e   civilizado.

Este artigo é escrito sob forte emoção. Desde sábado passado têm sido registrados comentários sobre a tragédia aérea ocorrida no litoral da Bahia, em sites de responsabilidade, comentários covardes, anônimos, naturalmente. Todos ofendem o público e enojam as pessoas com um mínimo de sensibilidade.Uma surpreendente, deprimente, maioria de “comentários” atinge grau de crueldade  que envergonha um povo, uma nação, um ser humano. Um bando de desajustados, recalcados, fracassados, ousam blasfemar ao se referirem de maneira caluniosa, carregada de inveja, a  parentes das vítimas, em momento de grande dor. Comentários que, identificados,  justificariam ações criminais, inclusive por parte do Ministério  Público.

Ninguém pode ficar indiferente à impunidade destes desprezíveis seres humanos, que transferem para a política, para diferenças de classes sociais ou econômicas,  veneno puro. Nada justifica publicarem-se monstruosidades  ocultas pelo anonimato. Nenhuma das centenas, num dos sites mais visitados, de origem nesta lama moral tem signatário assumido. Em nome da liberdade, até se poderiam admitir os textos e a publicação, mas desde que o autor se identificasse, para dar liberdade aos que discordam de responder à altura. Nesta cruzada hoje pública, iniciada em rede social a que pertenço,  faz aumentar a indignação pela falta do interlocutor a interpelar.

Entre os mortos estava uma criança que carrega o sangue de uma família amiga e querida. Mas, mesmo que assim não fosse, estaria nesta trincheira, a levantar a tese dos meios de comunicação presentes na internet de não mais publicarem comentários e opiniões de quem se esconde no anonimato – especialmente quando carrega ódios, que podem até comprometer o conceito  que cultivamos de formarmos um povo cordial, cristão, dotado de princípios de solidariedade.

O que se pode assistir – e basta conferir, procurando o noticiário eletrônico do final de semana sobre o acidente lamentável – envergonha os brasileiros, que a tudo vêm assistindo com tolerância, mas que, neste caso, até a tolerância, no meu entender, compromete a alma de quem não se indigna. E não foi a primeira vez que este desrespeito  se fez sentir. Outras oportunidades, por motivos não de mortes, se usou da covardia para denegrir homens públicos. Que o façam, nos mesmos termos, embora seja duro de aceitar, mas mostrem a cara, já que, por caráter, o sentimento humano certamente já não possuem