Ética estratégica
Toda cultura moderna foi concebida na recusa à fatalidade, na vontade de controle cada vez mais eficaz do nosso mundo. A partir de certo momento, tudo o que escapa ao nosso controle técnico passou a nos parecer intolerável, inaceitável. Quanto mais temos poder de controle de organização e de eficácia, mais estamos fadados à exigência de proteção e de precaução ilimitadas.
A época é do risco zero, de proteção total da saúde e da qualidade de vida. A exigência ética nos negócios é um investimento estratégico a serviço da imagem e do crescimento da empresa tanto no médio como no longo prazo; funciona como marketing de valores, transformou-se num meio econômico, em instrumento de gestão, em técnica de administração.
O futuro econômico das empresas é incerto, complexo. As novas condições de concorrência e a exigência de produção mais diversificada concorrem para uma situação de risco permanente. A desregulamentação dos mercados faz aumentar as exigências de limites à corrupção.
Para investir numa empresa, o critério mais determinante de certo número de fundos de investimento ético continua a ser a perenidade da situação financeira dessa empresa e o fato de que os interesses particulares não sejam prioritários em relação aos da organização. Incontáveis consumidores declaram agora que a dimensão do valor dos produtos os estimula a comprar.
Ética estratégica nos negócios é um tipo de questionamento do futuro no momento em que se intensificam as demandas por segurança e identidade. Isso não impede de identificar os limites do fenômeno, os impasses e até mesmo as contradições da gestão por meio de valores.
Nada é pior do que o descompasso entre os ideais proclamados e uma realidade deles distanciada. Conhecemos as desventuras de projetos que não têm tradução concreta na realidade cotidiana das empresas. Na vitrine, a comunicação; na realidade, ausência de participação e de diálogo social.
A mobilização de homens e mulheres reclama uma nova filosofia de gestão que permita ampliar a responsabilidade dos empregados em todos os níveis da vida da organização. Sem mudança efetiva, que possibilite as condições de reconhecimento, de interação, de formação, de responsabilidade, a exigência ética reduz-se, na melhor das hipóteses, a um conjunto de fórmulas de boa intenção.
A exigência ética requer outra coisa além da liturgia dos valores. Não são apenas as instalações industriais próximo a zonas habitacionais que devem ser atacadas, mas especialmente a insuficiência de métodos de gestão de pessoas.
Ética estratégica exige métodos de correção permanente de erros (auditorias interna e externa identificando as falhas institucionais), o fortalecimento dos sistemas técnicos de segurança (de modo a garantir a confiabilidade das instalações); e, sobretudo, o respeito aos contratos, aos compromissos estabelecidos e à palavra dada, por ser a própria base da vida econômica.
* Engenheiro
