Nos gramados do Planalto
Lula tem um estilo rompedor, mas de uma intuição semelhante à do saudoso Garrincha
Aproveitando as metáforas tão a seu gosto, digamos que Lula está pendurando as chuteiras. Pelo rumor que vem das arquibancadas, porém, é certo que ele não vai entregá-las ao Museu do Futebol. Vai mantê-las embaixo da cama, limpas e engraxadas, prontas para serem calçadas novamente daqui a quatro anos, quando termina o contrato de sua substituta.
Antes de levar as chuteiras para casa, Lula procurou orientar sua substituta na escalação da nova equipe (e como orientou!). Pouca coisa mudou, um apadrinhado aqui, um pupilo do Sarney ali, e muitas mulheres que é preciso prestigiar o futebol feminino (esperamos que todas tenham o talento da nossa Marta!). O italiano Mantega foi mantido no meio de campo (fazendo o trabalho de Conca no Fluminense), responsável pela armação das jogadas econômicas. Resta saber se a equipe conseguirá manter o ritmo imprimido por Lula ou se vai virar uma seleção francesa depois da saída de Zidane.
Lula despede-se dos gramados do Planalto com uma popularidade jamais alcançada na história do futebol republicano. Seus índices de aprovação junto à torcida fazem pensar que, caso resolvesse dar a volta olímpica no Maracanã, seria aplaudido de pé por 80% do público que lota o estádio, os aeroportos e os shoppings do país. Não chegou a ser uma unanimidade nacional – nem Pelé foi – que muita gente não gosta de seu estilo de jogo. Um estilo rompedor, de pouca técnica, mas de uma intuição semelhante à do saudoso Garrincha. Lula nunca frequentou a escolinha. Seu futebol surgiu na várzea sindical, e por isso mesmo foi obrigado a insistir como água mole em pedra dura para botar a braçadeira de capitão da Seleção. Diferente de seu antecessor, FHC, que saiu do banco direto para o comando da equipe (graças ao cartão vermelho que Collor recebeu).
Lula e FHC têm tanto em comum quanto Dunga e Mano Menezes, apesar de terem atuado juntos, pelo mesmo setor esquerdo do campo, à época em que os cartolas deram lugar aos quepes. FHC foi um jogador clássico, formado nas divisões de base da USP, não dava ponta-pés (no vernáculo) e dominava a bola e quatro idiomas com a mesma categoria, mas seu futebol vistoso era consumido apenas pelo pessoal das cadeiras e tribunas (há mais de 40 anos que somente 20% dos torcedores brasileiros entravam no mercado e nos estádios). Lula, ao contrário, sempre procurou jogar para todos. Abriu os portões e botou muita gente para dentro dos estádios.
Criticado por seu futebol feijão com arroz e seu falatório dentro de campo, Lula mudou nossa forma de jogar, saiu da retranca contra os poderosos, interagiu com a torcida, e estas talvez tenham sido suas maiores contribuições para o crescimento da nação auriverde. Se já não fôssemos o país do futebol, diria que ele botou o Brasil no mapa. Os adversários – onde se inclui boa parte da mídia – tentam minimizar sua importância argumentando que ele manteve o esquema de FHC e aproveitou-se do péssimo futebol praticado no exterior. Mas convenhamos, senhores: a distância entre o erro e o acerto é de apenas um passe. Num piscar de olhos um gol contra leva tudo pro brejo. Se Lula não fosse bom de bola, o Brasil poderia estar hoje rebaixado à Segunda Divisão. Oportunidades não faltaram.
