A saúde do nômade contemporâneo
Gilberto Ururahy, Jornal do Brasil
RIO - O homem contemporâneo é um nômade no mercado globalizado. E é nesse cenário multicultural e cada vez mais virtual , que executivos de todas as nacionalidades deslocam-se para diferentes pontos do planeta a fim de conquistar e assegurar mercados. Não há pátria no universo dos negócios.
Os executivos muitas vezes moram no local de trabalho e dormem nos aviões. São nômades casados, separados, divorciados, solitários. Indivíduos que vivem em função do trabalho e negligenciam a saúde. Essa engrenagem massacrante resulta numa vida controlada pela lógica dos mercados. Não há espaço para um ambiente gregário, para o conforto emocional. Raízes familiares se enfraquecem. Desperta, de forma agressiva, o pano de fundo do mal que mais impacta a saúde do homem moderno o estresse.
No início dos anos 90, o estresse se alastrou para todas as classes sociais, sem distinção. Encontrou no nômade contemporâneo, no entanto, seu melhor hospedeiro. Àquela época, as cirurgias de angioplastia e revascularização do miocárdio eram mais comuns em homens acima de 50 anos. Hoje, executivos de 35 anos estão sendo operados. Ainda na década de 90, o câncer de mama incidia sobre mulheres com mais de 40 anos. Contemporaneamente, executivas aos 25 anos já sofrem com a doença.
O nômade contemporâneo não tem uma rotina de alimentação saudável. Tampouco o hábito de exercícios físicos. Tudo isso aliado às pressões profissionais e à falta de tempo para realizações emocionais e familiares. O nômade é, assim, um propagador do estresse em seu ambiente de trabalho. Há muitos anos acompanho pesquisas sobre os níveis de estresse em grandes empresas nacionais e internacionais. Os resultados globais mostram que a doença atinge quase um quarto dos funcionários.
Em recente conferência realizada no MIT, em Boston, analisei dados quantitativos referentes a 70% dos nômades contemporâneos de grande empresa brasileira, com atuação global. Todos revelavam altos níveis de estresse. Não por acaso, esses executivos apresentavam estilo de vida inadequado, padrão de alta competitividade e obsessão por resultados. O que pude constatar foi que 50% desses executivos apresentavam colesterol alto, 60% tinham o hábito de dieta desequilibrada e 50% eram sedentários. O índice de obesidade, empatado com o da depressão, chegou a 8%.
As consequências do estresse profissional podem ter reflexos individuais ou sistêmicos. Na primeira hipótese, os efeitos atingem o indivíduo através de disfunções fisiológicas, psicológicas e comportamentais que dizem respeito ao seu universo particular. Na segunda, as consequências recaem sobre a empresa. O estresse deixa de ser uma questão de saúde individual, para se tornar um problema empresarial.
Isso é comprovado por pesquisa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), segundo a qual, na União Europeia, o custo dos problemas de saúde mental relacionados ao trabalho supera 3% do PIB. Na Inglaterra, três em cada dez funcionários são vítimas das exigências de produtividade , ao custo de 10% do PIB.
* Diretor da Med-Rio Check-up
