Cabral diz a juiz que ele demonstrou prejulgamento e pede "olho no olho" com delatores

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O ex-governador Sérgio Cabral, afirmou segunda-feira (31), durante depoimento ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que o magistrado demonstrou prejulgamento durante entrevista que concedeu ao jornal Valor há duas semanas. A acusação gerou um momento de tensão durante o interrogatório.

Bretas rebateu e disse que não há nada na entrevista que aponte prejulgamento e que dar entrevista é uma forma do juiz prestar contas à sociedade. Em outro momento, Cabral questionou uma decisão do juiz em relação ao seu processo e Bretas o interrompeu: "Senhor Cabral, não dou o direito de o senhor discutir minhas decisões".

O juiz Marcelo Bretas interrogou nesta segunda-feira o ex-governador Sérgio Cabral, a esposa de Cabral, Adriana Ancelmo, o empresário Eike Batista e o ex-vice-presidente do Flamengo, Flávio Godinho. O interrogatório foi referente à ação penal resultante da Operação Eficiência, desdobramento da Operação Calicute, deflagrada pela Polícia Federal em janeiro deste ano. Eles são acusados de crimes de lavagem de dinheiro com ocultação no exterior de aproximadamente US$ 100 milhões.

Olho no olho

No depoimento, Cabral voltou a defender seu governo, atacou delatores do esquema e pediu acareação com os doleiros que lhe atribuíram US$ 100 milhões no exterior. Ele questionou o procurador Eduardo El Hage sobre o rápido acordo de delação premiada que o Ministério Público Federal fez com os doleiros sem que houvesse provas de que o dinheiro no exterior era dele. "Como o MPF imputa a mim US$ 100 milhões sem nenhum documento que comprove isso?", disse. "Quero ver se eles têm coragem de falar, olho no olho, que essas contas eram minhas", disse Cabral, sendo rebatido pelo juiz: "Aqui, olho no olho é comigo". 

O ex-governador também contestou o fato de joalherias colocarem em sua conta joias sem nota fiscal que ele não comprou. El Hage respondeu que há provas materiais que comprovam a denúncia e que a celeridade do acordo ocorreu “talvez porque US$ 100 milhões seja o maior valor já devolvido na Lava Jato”, respondeu.

Eike

Cabral disse ainda que sua relação com Eike Batista era formal, com o único objetivo de estimular o investimento no Rio de Janeiro e que essa relação institucional foi “muito positiva para o Rio”. Ele garantiu que todos os recursos que recebeu de Eike foram para investir no estado do Rio de Janeiro e apoiar suas campanhas.

De acordo com o Ministério Público, Cabral recebeu do empresário Eike Batista US$ 16,5 milhões em propina, além de R$ 1,5 milhão por meio do escritório de advocacia de Adriana Ancelmo. Ele também negou que tenha havido pagamento de propina para que o Rio fosse sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

O ex-governador voltou a afirmar que recebeu dinheiro de Caixa 2 para financiar suas campanhas e garantiu que “quase a totalidade” dos recursos ilícitos que recebeu foi investido na política. Cabral admitiu que o Eike financiou entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões em sua campanha em 2010, mas que o dinheiro foi pago no Brasil, embora fosse de Caixa 2.

Acusação

De acordo com o Ministério Público, Cabral recebeu do empresário Eike Batista US$ 16,5 milhões em propina, além de R$ 1,5 milhão por meio do escritório de advocacia de Adriana Ancelmo. Ele também negou que tenha havido pagamento de propina para que o Rio fosse sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sérgio Cabral é réu em outras 11 denúncias e já foi condenado a 14 anos e 2 meses de prisão pelo juiz Sérgio Moro, na Operação Lava Jato.

O advogado de Cabral, Rodrigo Roca, disse que fará arguição de suspeição (processo para afastar do caso um juiz, membro do Ministério Público ou servidor da Justiça que se desconfie de ser parcial em um caso) do juiz Marcelo Bretas de todos os 11 processos que preside contra Cabral, com base nas declarações que o juiz fez à imprensa.

“Pelo teor das declarações, ele teria só uma dúvida, se foi um crime ou se foi outro crime. Ou seja, não aceita nem por hipótese uma absolvição. Ele diz ‘ou foi propina, e portanto corrupção e ostentação, ou foi lavagem de ativos'”, argumentou o advogado. “Estou convencido de que a sentença foi dada por essa matéria. Juízes não podem se manifestar e antecipar seus juízos em relação ao mérito das causas que julgam, está na Lei Orgânica da Magistratura nacional”.

Com Agência Brasil