Projetos sustentáveis nas favelas inspiram autoridades
Favelas cariocas pouco são vistas como redutos de sustentabilidade. Sem infraestrutura básica, como coleta de lixo, esgoto encanado e distribuição formal de água e luz, moradores de comunidade são pouco estimulados a praticar ações voltadas para o meio-ambiente, ao mesmo tempo em que os locais onde moram não veem o Estado presente.
Porém, algumas ações individuais começam a inspirar não só outros moradores, mas também o governo, mostrando o potencial sustentável destes locais. É o caso do projeto liderado e criado pela ex-doméstica Regina Tchelly, moradora da Babilônia, chamado "Favela Orgânica". Ao criar receitas com produtos que iriam normalmente para o lixo ela acabou inspirando o projeto, que foi adotado pela Secretaria do Meio-Ambiente do Estado do Rio de Janeiro.
"Eu nunca gostei de ver comida desperdiçada, era uma coisa que me irritava quando eu trabalha na casa de outras pessoas. Então, eu comecei a inventar receitas com alimentos que normalmente vão para o lixo, como cascas de bananas, melancias e abóboras. E criei sucos, molhos e doces, dentre outras coisas", explica ela.
De acordo com a superintendente da secretaria, Ingrid Gerolimich, o objetivo é expandir este programa para outras comunidades. "O que ela faz é fantástico", elogia. Tchelly atualmente oferece oficinas em diversos locais pela cidade, inclusive em outras favelas. "É importante potencializar os talentos locais para que as ideias se expandam e melhorem a vida das pessoas", analisa Gerolimich.
Hortas: paisagismo e venda
A ideia do projeto "Hortas Cariocas" não foi de Cinthia Luna e suas amigas do Fogueteiro, comunidade que fica no centro da cidade do Rio. Porém, sem o esforço diário destas mulheres pouco teria sido realizado. Empunhando enxadas e pás, eles acordam cedo todos os dias para cuidar das mudas que começam a brotar em um terreno no alto do morro. Feijão, manjericão e flores serão usados para consumo, venda e paisagismo quando estiverem prontas. Pequenos canteiros já começam a surgir em outras residências, inspiradas pela horta.
"Vamos plantar árvores para reflorestar a comunidade, mas também para proporcionar sombra e embelezar as ruas. Já vemos diversas pessoas que vem aqui perguntar como funciona, pedem ajuda para fazer o mesmo em suas residências. É muito emocionante ver esta mudança acontecendo", diz Cinthia, também presidente da associação de moradores.
O terreno que agora floresce já foi um grande lixão. Todo os despejos foram recolhidos pelas voluntárias que, após escolher e organizar o espaço, receberam aulas de botânica e jardinagem, exigências que compõem o projeto, que é parceria entre a secretaria de Meio-Ambiente e o Instituto de Estudos da Religião (ISER), uma ONG que trabalha em favelas há mais de 40 anos.
A iniciativa atingiu quatro comunidades até agora e, de acordo com o superintendente, continuará a se expandir. "O objetivo é capacitar os moradores locais com o conhecimento ambiental e a formação específica para que eles tenham uma melhor relação com a comunidade e ainda possam criar novas formas de renda para suas famílias", diz Ingrid.
Contradições persistem
Apesar do sucesso nas insipientes iniciativas dentro das comunidades, velhos problemas persistem. Valas com esgoto a céu aberto, pouco asfaltamento, água e luz improvisada e acúmulo de lixo são alguns dos problemas facilmente encontrados no caminho pelas favelas. Além disso, repressão, corrupção e violência por parte da polícia atrapalham a expansão de ideias e projetos dentro das comunidades, relatam moradores.
Segundo Sonia Fleury, cientista política da Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ), ainda não é possível vislumbrar um ambiente mais sustentável enquanto estas contradições permanecerem. "Como pensar em sustentabilidade e conservação do meio-ambiente quando o Estado não oferece o básico? É um esforço sobre-humano para estas pessoas pensarem nestas questões em locais como este", finaliza.
