Chacina da Chatuba segue na Justiça 6 meses após crime

Processos  refletem a luta de pais de vítimas

Por Henrique de Almeida

São seis meses de luto. Cildes Vieira é pai de Christian Vieira, 19 anos, um dos seis jovens mortos na chacina da Chatuba, quando traficantes que viviam no Parque do Gericinó, na Baixada Fluminense, cometeram o crime. A luta por justiça continua, agora na esfera judicial: três processos, dois na Vara Criminal de Nova Iguaçu e outro na Vara Federal em São João de Meriti, acusam os envolvidos no crime, além do Estado do Rio de Janeiro e a União. 

Vieira conversou com o Jornal do Brasil em outubro de 2012, contando que vinha sofrendo ameaças veladas e sentia muita insegurança. Passados cinco meses, ele revela, com exclusividade, que pouca coisa mudou na realidade dele e das duas filhas:

“Quando o Juninho foi morto, três caras vieram de moto na minha casa procurando por mim. Eu não estava em casa, e eles disseram que iam voltar. Eles não voltaram mais, mas a gente fica assustado, né?”, diz ele, acrescentando que um dos menores envolvidos no assassinato, conhecido como Foca, passou pela rua onde Cildes mora de moto. “ E ainda pichou um dos muros aqui perto, para marcar território”, reclamou o pai, indignado.

Para ele, a luta nesses últimos cinco meses está sendo marcada pela amargura. “É muito difícil você tentar lutar sem o apoio de ninguém, me sinto abandonado. As pessoas se esqueceram dessa situação toda. Isso é algo que não pode ficar assim”, diz.

Traficantes permanecem

Cildes denuncia que, apesar do crime na área do Parque do Gericinó, de propriedade do Exército, pouca coisa mudou na região:

“Uma pessoa foi fazer uma caminhada, perto da minha casa que dá para a área do Gericinó. Ele viu três traficantes armados ali, que inclusive se esconderam quando ele passou. Agora fizeram um muro naquela pista ali, e o acesso ficou bloqueado”, reclama Cildes. “É um absurdo, uma incompetência, uma vergonha fazerem um muro naquele lugar. Antes dos meninos morrerem, passava gente com quentinha para os traficantes escondidos no mato. Como podem 120 homens do exército não verem nada?”, questiona.

Cildes diz ainda que o tráfico de drogas continua na região da Chatuba, porém de forma menos aberta. “Eles vendem drogas sem o menor problema, mesmo com a forte presença policial. É revoltante isso”, lamenta. Cildes falou também sobre a dor de estar há quase seis meses sem o filho:

“É complicado, porque você fica sem passar o Natal, Ano Novo sem ele, um garoto tão bom que perdeu a vida desse jeito. É difícil. Tem dias que eu nem saio de casa por causa da depressão”,  comenta ele tristonho, e mais ainda ao falar da irmã de Christian Vieira, hoje com três anos:

“Ela perguntou pelo Christian no domingo: ‘Pai, busca ele para mim?’. Me cortou o coração dizer que isso não era possível, que ele tinha virado uma estrelinha”, descreveu ele, que, apesar da tristeza, não vai descansar até ver a punição dos traficantes que levaram seu filho.

“É muito difícil você tentar lutar sem o apoio de ninguém, me sinto abandonado. As pessoas esqueceram. Mas nunca pensei em desistir”, concluiu Vieira.

Investigação

Eduardo Gomes, investigador da 53ª DP responsável pelo caso, disse que o caso foi dado como encerrado no dia 18/10/2012, com os nomes sendo encaminhados à 4ª Vara Criminal de Justiça de Nova Iguaçu. 

Sobre os menores de idade envolvidos no crime, Eduardo disse que os casos foram direcionados à Vara de Infância e Juventude, também em Nova Iguaçu. Uma outra fonte dentro da delegacia, no entanto, disse que Foca, citado por Cildes Vieira, estava solto até pouco tempo atrás.

Denúncias em curso

Os três processos referentes à chacina da Chatuba ainda estão em sua primeira instância, levando a pensar quando serão realizados os julgamentos para definir os casos. A denúncia mais antiga é de 12/09/2012, um dia após o enterro dos seis jovens, e cita 14 nomes, entre eles Remilton Moura da Silva Junior, o “Juninho Cagão”, líder do tráfico da região e apontado como mandante do crime.

Os 14 foram indiciados por homicídio qualificado, e o texto ainda está em fase de citação dos réus. “Houve algumas defesas prévias dos réus e pedidos de revogação de prisão. Essas revogações, porém, não foram autorizadas”, explicou Adiléia Triani, advogada de Cildes Vieira e das famílias das outras seis vítimas, que se juntaram para fazer a denúncia junto ao Ministério Público. O MP aceitou a denúncia e a encaminhou no processo de número 0102745-22.2012.8.19.0038, efetuado na 4ª Vara Criminal, de Nova Iguaçu.

A segunda denúncia, realizada em 20 de fevereiro deste ano, foi encaminhada depois da morte de “Juninho Cagão”, assassinado pelos próprios cúmplices perto da favela do Chapadão, em janeiro. O nome de Juninho foi retirado da ação, movida por José Aldecir da Silva, pai de José Aldecir da Silva Júnior, que ficou desaparecido por três dias até seu corpo ter sido encontrado em 13 de setembro de 2012.

O processo  0013087-50.2013.8.19.0038 também corre na Vara de Nova Iguaçu, e os dois processos serão julgados pelo juiz Márcio Alexandre Pacheco da Silva.

Na esfera federal, a responsável por julgar o processo 0003567-23.2012.4.02.5110, de 18/12/2012, é a juíza Adriana Alves dos Santos Cruz. O processo de ação indenizatória movido pelos familiares das vítimas não tem nenhum valor estabelecido. Segundo a advogada, a maior preocupação, no entanto, é outra:

“Queremos realmente chamar a União à sua responsabilidade, uma vez que a área na qual eles foram mortos é um território do Exército, que não estava sendo resguardado. Daí a ação movida”, explicou Adiléia.

Após a apresentação da denúncia, a primeira instância do processo foi concluída no dia 8 de janeiro deste ano, e a juíza não permitiu que o valor indenizatório fosse pago antecipadamente. “Agora, só depois da contestação”, finalizou a advogada.

Relembrando a tragédia

Dia 11 de setembro de 2012. No cemitério de Olinda, em Nilópolis, os corpos de seis jovens eram enterrados, em uma chacina que abalou o Rio de Janeiro.

Dentro do Parque do Gericinó, os jovens encontraram os traficantes liderados por Remilton Moura da Silva Junior, conhecido como “Juninho Cagão”, já falecido. Christian Vieira, de 19 anos; Glauber Siqueira, Victor Hugo Costa e Douglas Ribeiro, de 17 anos; e Josias Serles e Patrick Machado, de 16 anos, foram torturados e executados com diversos tiros pelos traficantes.

Além deles, outras três pessoas também foram assassinadas: Jorge Augusto de Souza Alves Júnior, de 34 anos, cadete da PM; o pastor evangélico Alexandro Lima, de 37; e José Aldecir da Silva Júnior, de 19. Os dois últimos teriam sido testemunhas do assassinato do cadete da PM.