Mãe de adolescente nega ter sido refém do próprio filho em chacina

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A mãe do adolescente apreendido na manhã desta quinta-feira, acusado de participação na chacina de seis jovens, além de um pastor e um cadete da Polícia Militar (um outro morador está desaparecido) na comunidade da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense, negou que seu filho a tenha usado como escudo no momento em que foi preso por homens do 20º Batalhão da Polícia Militar (BPM - Mesquita). 

Em conversa com jornalistas em frente à 53ª DP, que investiga o caso, Luciene, que não quis se identificar pelo sobrenome, afirmou que G.L.F., 16 anos, conhecido como Foca, telefonou para ela na noite da última quarta-feira querendo se entregar. "Não teve nada disso de me colocar como escudo, fui eu quem chamou os policiais, que tiveram boa conduta, foi tudo tranquilo", explicou sobre a informação passada pelo 20º BPM de que o adolescente teria ameaçado a própria mãe para não ser preso.

"Não tem absolutamente nada disso", reforçou Luciene. "Ele me ligou ontem à noite e me disse: 'mãe, estão me acusando, quero me apresentar e quero me defender'. Foi aí que eu tomei a decisão de chamar a Polícia, que veio hoje cedo na minha casa", acrescentou.

De acordo com informações passadas pela delegacia que investiga o caso, Foca seria o terceiro na "hierarquia" do tráfico na comunidade da Baixada Fluminense, ocupada desde a última terça-feira, por ordem da Secretaria de Segurança Pública do Estado, para a instalação de uma Companhia Destacada da Polícia Militar com 112 PMs. "Eu acredito que ele não tenha feito isso, se não já teria fugido, desaparecido daqui", acrescentou a mãe do adolescente.

Megaoperação e prisões

A Polícia Militar iniciou nas primeiras horas da última terça-feira a ocupação permanente na comunidade da Chatuba. No local está sendo implantada uma Companhia Destacada da Polícia Militar com 112 PMs. Cerca de 250 policiais militares do 3º Comando de Policiamento de Área (CPA), Coordenadoria de Inteligência (CI), Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), Batalhão de Ações com Cães (BAC), Grupamento Aeromarítimo e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) participam da ação. A onda de violência - no mínimo 12 mortes em três dias - levaram o comando da Corporação a tomar esta decisão.

A Polícia Civil, na tarde da última quarta-feira, pediu a prisão temporária de sete traficantes suspeitos de participação na chacina da favela da Chatuba, em Mesquita, na Baixada Fluminense. Entre os acusados está Remilton Moura da Silva Júnior, o "Juninho Cagão", apontado como chefe do tráfico naquela comunidade. O pedido foi encaminhado pelo delegado Júlio da Silva Filho, titular da 53ª DP (Mesquita).

As autoridades trabalham com a informação de que pelo menos 10 pessoas do bando de Remilton teriam participado da chacina. Além dos seis jovens, que foram enterrados nesta terça-feira em Nilópolis, o grupo teria assassinado também o pastor Alexandre Lima, 37 anos, e o cadete da Polícia Militar Jorge Augusto de Souza Alves Junior, 34 anos, no mesmo dia. José Aldeci da Silva Junior, que teria presenciado a morte do pastor, pode ter sido capturado pelos bandidos porque está desaparecido. Na tarde desta quinta-feira dois corpos foram encontrados e não tinham sido identificados até às 18h, entretanto a polícia acredita que um deles seja de José Aldeci da Silva Junior.

Crime bárbaro

Os seis rapazes assassinados no último sábado por traficantes do bairro da Chatuba, em Mesquita, foram barbaramente torturados, revelaram laudos do Instituto Médico Legal (IML). Os documentos mostram que pelo menos dois deles tiveram os braços fraturados e quatro foram baleados na cabeça. Um dos jovens teve o pênis cortado. As vítimas ainda tinham cortes profundos nos pescoços. Os relatórios já estão com os policiais da 53ª DP (Mesquita).

Os corpos dos jovens, entre 16 e 19 anos, foram encontrados na manhã de segunda-feira às margens da Via Dutra, nus, enrolados em lençóis e amordaçados. Eles estavam sumidos desde a tarde de sábado, quando foram tomar banho de cachoeira na Serra de Gericinó.

De acordo com o IML, o que causou as mortes de dois jovens, Patrick e Josias, foram ferimentos na cabeça provocados por um objeto perfurante, o que pode indicar que os dois foram esfaqueados seguidamente. Os outros morreram com de tiros também na cabeça, todos disparados de curta distância.

Todos os jovens, com idades entre 15 e 19 anos, foram reconhecidos pelos familiares. Eles moravam em Nilópolis, também na Baixada. Os adolescentes foram identificados como Christian Vieira, 19 anos; Glauber Siqueira, Victor Hugo Costa e Douglas Ribeiro, 17 anos; e Josias Serles e Patrick Machado,16 anos. Eles foram enterrados na última terça-feira.

Disque-Denúncia

Desde que os corpos dos jovens foram encontrados e teve início o processo de ocupação da comunidade da Chatuba, o Disque-Denúncia, em sua última atualização, na tarde desta quinta-feira, já recebeu 307 ligações com possíveis informações sobre o crime e o paredeiro dos envolvidos. Todos os dados levantados já foram encaminhados à Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense. O telefone do Disque-Denúncia é (21) 2253-1177 e o anonimato é garantido.