A porção lusa do balanço carioca
Marcos Eduardo Neves, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Às vésperas da Copa do Mundo, mais um motivo para respeitarmos ainda mais Portugal, adversário brasileiro no grupo da primeira fase. Oito anos após o economista Carlos Lessa ter publicado Os lusíadas na aventura do Rio moderno, a importante participação dos portugueses na formação da cultura e da identidade do Rio é tema do livro De Pai para Filho Imigrantes portugueses no Rio, da Documenta Histórica Editora.
Procuramos mostrar como o português se misturou na sociedade carioca salienta o jornalista Silvio Rabaça, um dos autores da obra. A maior parte dos imigrantes era formada por lavradores, mas, no período o café, entrava em decadência. Assim, eles foram absorvidos pela cidade e pelo poder do capital comercial do Rio. Fundaram várias associações que serviram quase como previdências sociais, num tempo em que o Estado brasileiro ainda não se consolidara.
Organizado pelo urbanista Mozart Vitor Serra, em conjunto com o sociólogo Carlos Alberto Rabaça, o livro teve, além de Rabaça, o mestre em comunicação social Gustavo Guimarães Barbosa como responsável por parte dos textos. Barbosa vê a história do Rio entrelaçada à contribuição cultural portuguesa.
O nome do morro Chapéu Mangueira, por exemplo, tem a ver com um imenso outdoor que um português da Fábrica Chapéu Mangueira expôs na região do Leme explica, fazendo questão de quebrar um mito. Dizem que a feijoada é contribuição dos escravos, mas não fazia parte da cultura africana comer aquele tipo de feijão. O primeiro prato foi servido num hotel de portugueses, como o escritor Pedro Nava publicou num livro seu.
De pai para filho apresenta um registro iconográfico de alto nível. As informações não deixam por menos. O passeio vai desde a palavra galego, que era pejorativa até mesmo em Portugal, à apresentação do primeiro carioca, filho de um feitor português com uma índia. Segundo o Cônsul-Geral de Portugal no Rio, Antonio Almeida Lima, a imigração é um verdadeiro hino à liberdade dos homens e à conquista da cidadania.
No mesmo sentido, a imigração portuguesa para cá é um dos fios importantes com que se fabricou o tecido social brasileiro expressa o diplomata.
Os imigrantes portugueses e seus significados para a população brasileira; a importância do Porto do Rio em tempos idos; a expansão da agricultura cafeeira, quando a cidade chegou a produzir 90% do café nacional e o Brasil, 60% da produção mundial; a fundação das associações e casas regionais; a origem dos sistemas bancário, industrial e comercial brasileiros, nada foi esquecido.
Em síntese, nossos dois países ganharam com essa imigração avalia Almeida Lima. O Brasil se enriqueceu social, econômica e culturalmente, enquanto Portugal enriqueceu a suas gente.
