Tradição de evitar carne vermelha na Sexta da Paixão perde a força
Marcelo Fernandes, Jornal do Brasil
RIO - No romance de Ernest Hemingway O velho e o mar, um dos personagens principais é um marlin azul de cinco metros, que rouba a cena em sua luta contra um velho pescador azarado para tentar sobreviver. Nesta época do ano, os peixes também são protagonistas, mas em vez de uma batalha gloriosa, são o prato principal da população devido à tradição de evitar carne vermelha durante a sexta-feira da Paixão.
Entre os prediletos da clientela, peixeiros elegeram sardinha, linguado, badejo e cherne, cujo quilo custa em torno de R$ 35. A tradição, que vem desde os primórdios da Igreja Católica, já foi seguida por muitos durante os 40 dias anteriores à Páscoa, mas, hoje em dia, está praticamente restrita à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira da Paixão.
Porém, para o gerente da Colônia de Pescadores de Copabacana, Marcos Pelluso, a tradição está se perdendo com o tempo, e isso se reflete nas vendas. Ele conta que é católico e sempre seguiu à risca a recomendação de evitar carne vermelha no período da Quaresma.
Cinco anos atrás, o mercado recebia o dobro de clientes. Hoje, as pessoas deixaram a religião, ou seguem outras diferentes. Isso se reflete na alimentação e, consequentemente, nas vendas opina.
A opinião é compartilhada pelos colegas do outro lado da Baía de Guanabara. Peixeiros do Mercado de Peixe São Pedro, em Niterói, concordam com a diminuição nas vendas, e até na quantidade pescada.
Segundo o diretor da associação do mercado, Atílio Guglielmo, a previsão de venda de pescado para esta Semana Santa gira em torno de 120 e 150 toneladas, contra 40 negociadas normalmente durante o restante do ano. Mesmo assim, o número é menor que em 2009, quando foram arrematadas 200 toneladas.
As pessoas realmente estão comendo menos peixe, às vezes por não saberem como preparar, ou por só fazerem frito. Fritura em apartamento realmente não dá, mas existem outras opções, como assar ou cozinhar. Além disso, é muito mais saudável do que comer carne vermelha recomenda.
Hábito
Mesmo assim, muitas pessoas continuam com a tradição, mais pela força do hábito do que por uma imposição da Igreja.
É um hábito familiar, desde criança, via minha avó não servir carne vermelha nesta data. E também sou católica, o que acaba influenciando no cardápio lembrou a aposentada Vilma Freire, depois de comprar dois quilos de tainha para os almoços de quinta e sexta-feira com o marido Ele é natural do Acre, em cada refeição vai um quilo de peixe.
Sou católica não-praticante, mas não faço só pela tradição, e sim por gostar de comer peixe resume a analista de sistemas Monique Guimarães, de 25 anos.
Substituição da carne pelo peixe é prática muito antiga
O significado da troca da carne vermelha por peixe na dieta é costume que vem desde antes do nascimento de Cristo. A tradição do jejum e o consumo de carne branca já eram praticados pela religião judaica, de acordo com o professor de História, Edgar Leite Ferreira, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
O simbolismo de comer carne vermelha tem a ver com costumes antigos, que acreditavam que o sangue continha a alma das pessoas e dos animais. O peixe entra no assunto por ser um animal cujo sangue não aparece tão ostensivamente quanto nos outros animais explica.
Já a Quaresma é uma tradição somente católica, estabelecida na época do Império Romano e do reinado de Constantino. Atualmente, varia nas igrejas católicas de diversos países. Em alguns lugares do Oriente, até o consumo de peixe é proibido.
A Quaresma tem relação com os 40 dias que Jesus passou no deserto e confrontou-se com o Diabo. Durante todo esse tempo, ele teria ficado em um longo jejum conta.
Para o professor, a queda no consumo mostra uma sociedade menos ligada à Igreja e, como consequência, às tradições.
Com a separação do Estado da Igreja Católica, durante a Revolução Francesa, e no Brasil em 1891, as pessoas foram deixando o hábito. Hoje em dia, a Semana Santa é apenas mais um feriado, que todos aproveitam para se divertir.
Padre diz que não há uma imposição da igreja
A recomendação da Igreja Católica para que se coma peixe no lugar da carne vermelha na Sexta-Feira Santa nunca existiu. É o que afirma o Monsenhor Sérgio Costa Couto, padre da igreja do Outeiro da Glória. O clérigo explica que o que existe é uma orientação para que os fiéis façam jejum na data, com uma refeição completa e duas leves.
Obviamente, isso é algo muito particular, pois algumas pessoas precisam de mais energia do que outras, e ninguém é obrigado a passar fome. Isso é mais uma questão de bom senso do que de fé observa.
Em relação ao período da Quaresma, quando o consumo de carne era evitado por 40 dias, desde a Quarta-Feira de Cinzas, até o Domingo de Páscoa, o padre conta que, hoje em dia, isso é apenas uma sugestão da igreja.
Algumas coisas são adaptáveis, porque não pertencem à fé, e sim aos costumes da sociedade. O jejum pretende demonstrar ao fiel que ele pode viver sem amarras a determinado tipo de coisa. Mas isso é algo pessoal, e não uma obrigação frisa.
Para o religioso, que é vegetariano, o importante não é o que se come, e sim como a pessoa se comporta.
Perguntaram certa vez se é muito 40 dias sem carne, e eu vivo sem comer qualquer tipo de carne há 40 anos, inclusive peixes, e isso para mim não é nenhuma penitência assegura.
Peixe previne infartos
Na Quaresma ou fora dela, o peixe é um dos alimentos mais saudáveis que se conhece, segundo o nutricionista Marcelo Barros, chefe do setor de Nutrição do Instituto Nacional de Cardiologia (INC).
O tipo de gordura encontrado nos peixes é o Ômega 3. Essa substância traz diversos benefícios para a saúde e atua baixando o nível de triglicerideos, a gordura do sangue, que em grande quantidade pode entupir os vasos sanguíneos e levar ao infarto esclarece o nutricionista.
Marcelo não condena a carne vermelha e recomenda apenas a moderação no consumo.
A pessoa se alimentando normalmente pode comer o que quiser, mas o ideal é o consumo de peixe pelo menos duas vezes por semana ensina.
Desconto de 30% para quem quer pecar sexta-feira
Flávio Dilascio
Principais redutos dos amantes da boa e velha carne vermelha, as churrascarias cariocas estão divididas entre funcionar ou não na Sexta-Feira da Paixão, data em que muitos católicos evitam ingerir esse tipo de alimento. Enquanto alguns dos estabelecimentos ficarão fechados para respeitar a tradição cristã, outros aproveitarão para faturar mais, preenchendo a lacuna deixada pelos concorrentes.
Aqui sempre funcionamos normalmente nessa data. Não tiramos a carne do nosso cardápio de maneira alguma, pois essa é uma de nossas especialidades. No ano passado, 150 pessoas estiveram aqui na Sexta-Feira da Paixão, o que prova que muitos já não seguem a orientação da Igreja de não comer carne na data comentou o gerente do restaurante Ilha do Sol, na Barra da Tijuca, Marcelo Vianna, que revelou ainda que a casa funcionará sexta-feira com um preço maior que o habitual, por ser feriado.
Enquanto a Ilha do Sol funcionará com um preço maior que o habitual, a churrascaria Porcão optou exatamente pela estratégia inversa nesta Sexta-Feira da Paixão. A casa que possui quatro unidades no Rio e uma em Niterói está anunciando um desconto de 30% para o seu rodízio de carnes, que inclui bufê de saladas e frios. O horário de funcionamento da casa sexta-feira é das 12h à 0h30.
Frutos do mar
Outra churrascaria tradicional, a Pampa Grill só abrirá uma de suas duas unidades: a da Barra da Tijuca. Apesar de disponibilizar um vasto cardápio de carnes, a empresa aposta na estratégia de fazer um festival de peixes e frutos do mar no feriadão.
De sexta-feira a domingo, faremos o nosso Festival Pantaneiro, com peixes, temperos e sabores típicos da região Centro-Oeste. Por oferecermos esse cardápio variado, além das carnes, estamos esperando um aumento de 10% da frequência nesta sexta-feira comentou a gerente de marketing do Pampa Grill, Renata Melki.
A churrascaria Palace, anexa ao hotel Copacabana Palace, também adotou estratégia parecida para o dia de sexta-feira. As perspectivas dos funcionários são muito otimistas.
Teremos um festival de frutos do mar, e a tendência é de que o movimento aumente bastante. Esperamos para sexta-feira um público típico de domingo, que corresponde ao dobro da frequência de uma sexta-feira informou a auxiliar administrativa da casa, Luciana Rodrigues.
Churrascaria das mais tradicionais da Zona Sul, a Carretão (que tem unidades em Copacabana e Ipanema) funcionará normalmente. Já a rede Estrela do Sul, que possui cinco unidades na cidade, optou por não abrir suas portas sexta-feira, respeitando a religião católica.
Comércio informal também fica dividido
Se os restaurantes e churrascarias da cidade divergem se devem ou não servir carne sexta-feira, o comércio de rua vai pelo mesmo caminho. Enquanto alguns barraqueiros servirão seus famosos churrasquinhos nas caçadas e esquinas do Rio, outros nem ousarão levar suas mercadorias para a rua, temendo um prejuízo.
Como muitos não podem comer carne, prefiro retomar as vendas no sábado diz Francisco Nascimento, 48 anos, que vende churrasquinho em diversas partes da cidade.
Funcionária de uma barraca de churrasco na Zona Norte, Graça Maria, 62, afirma que seu comércio também não funcionará sexta-feira.
Decidimos que não abriremos porque em feriado o movimento fica muito pequeno relata. Sou católica, apesar de pouco praticante, e evito comer carne sexta-feira. Prefiro assar um peixinho.
Expectativa de lucro
Ao contrário de muitos comerciantes informais que não irão às ruas, há quem vislumbre na Sexta-Feira da Paixão uma grande oportunidade de lucro.
Esse é o dia em que vendemos mais churrasquinhos, pois a maioria dos nossos concorrentes não trabalha e vários restaurantes da cidade estão fechados afirma um vendedor de churrasco da Zona Norte, que não quis se identificar.
Trabalhando com quatro tipos de carne, ele só quer colaboração de São Pedro:
Temos que torcer para que faça um tempo bom, pois a chuva afugenta os clientes.
