Moradores reclamam de carros parados desordenamente

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André Balocco, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No Dicionário Aurélio, a definição de provisório é clara: feito por provisão, interino, passageiro, temporário. Mas no ABC da administração pública do Rio, a mesma palavra ganhou um novo significado: descaso. Exatos dez anos depois de criada e publicada no Diário Oficial do Município, a Resolução Provisória 1004, do dia 15 de março de 200, da Secretaria Municipal de Transportes, continua valendo como autorização para se estacionar no canteiro central da Lagoa. O resultado? Buracos, buracos e a sensação de que a lei no Rio, de vez em quando, pode sim ser burlada. Afinal, ali vale tudo, inclusive estacionar lado a lado, mas em sentidos opostos.

Os dez anos da medida, publicada no DO no final da administração de Luiz Paulo Conde, não passaram em branco pela presidente da Associação de Moradores do Leblon e do Alto Leblon, Evelyn Rosenzweig. A transformação informal de uma medida provisória em definitiva é, segundo ela, um incentivo à realização de outros pequenos delitos numa cidade que, ultimamente, tem sido marcada por diferentes formas de burlar a lei.

É um absurdo, é a instituição da ilegalidade. Tudo aqui começa com um jeitinho e se transforma em fato consumado critica.

Evelyn reconhece a demanda de estacionamento na Lagoa, sabe que o comércio da orla, assim como o lazer, precisa deste espaço para sobreviver, mas não entende como o poder público não se posiciona sobre o assunto, pendente há tanto tempo. Para ela, a criação de baias, com o necessário ordenamento das vagas, inclusive cobrando-se por elas, é mais do que uma necessidade, é uma imposição.

Não se pode permitir que os carros estacionem na calçada em hipótese alguma, pois assim todos se acham no direito de estacionar sobre outras calçadas. É preciso um projeto imediatamente.

O subprefeito da IV Região Administrativa, Bernardo Carvalho, chega a ironizar o aniversário da medida.

É o estacionamento provisório mais antigo do Rio de Janeiro brinca.

Bernardo, que é favorável à reforma do local e à criação de baias de estacionamento, admite que a sua região administrativa não tem como atender à demanda dos queixosos, que ligam reclamando do piso esburacado no canteiro das avenidas Epitácio Pessoa e Borges de Medeiros.

A nossa gerência de conservação não tem fôlego para consertar as calçadas o tempo todo, pois eu conserto, ela quebra, eu conserto, ela quebra. E as pessoas não querem saber, pois veem o buraco e reclamam diz.

Bernardo diz que a administração do prefeito Eduardo Paes vai dar um ponto final ao problema, pois tem um grande projeto para a área que inclui reforma do canteiro central com criação de baias, adequação do piso para estacionamento e uma nova iluminação. Só não sabe dizer quando isto acontecerá.

Quando a Secretaria de Urbanismo começou a elaborar o projeto, consultou a Região Administrativa. Na ocasião, falei destes problemas.

Através de sua assessoria de imprensa, a Secretaria Municipal de Transportes, que pediu a resolução provisória 1004, disse ter interesse em transformar o estacionamento em definitivo, mas que aguarda um projeto de urbanização da Lagoa.

Enquanto isso, estacionar na Lagoa continua não sendo crime provisoriamente, a bem da verdade.