Cariocas têm o péssimo hábito de abandonar móveis nas ruas

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Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O Rio de Janeiro é uma enorme sala de estar a céu aberto. Não se trata de figura de retórica baseada na hospitalidade carioca, mas uma constatação feita no último dia 10, após um breve passeio pela cidade. É inacreditável a quantidade de sofás abandonados nas ruas. Só em Copacabana, num trecho de dois quarteirões, entre as ruas Miguel Lemos e Sá Ferreira, havia nada menos que cinco deles atirados na calçada.

Eu troquei os sofás lá de casa e não sabia o que fazer. Sorte que achei uma pessoa que queria. Senão, o jeito seria colocar no lixo diz a dona de casa Juliana de Souza, moradora na Barra.

Por colocar no lixo , entenda-se jogar o móvel na calçada, na esperança de que ele seja recolhido por algum carroceiro ou pela Comlurb. O que Juliana e muita gente não sabe é que a empresa municipal de limpeza urbana tem um serviço gratuito que retira esses trambolhos das residências (leia texto na página 18).

O problema é que o sofá é grande demais para ser simplesmente jogado na lixeira do prédio e pequeno demais para justificar a contratação de um frete para levá-lo a um depósito de velharias. Diante do impasse, muita gente mal-educada acaba esperando a calada da noite para desovar o sofá na via pública.

E até empresas contribuem com a desordem. Os donos da discoteca Help, por exemplo, jogaram nada menos que três deles em plena avenida Atlântica no último dia 9, prazo limite para que desocupassem o imóvel.

Quem aproveita o triste hábito carioca são os sem-teto, que, acostumados a dormir na dureza do passeio, passam noites inesquecíveis nos sofás que encontram pelas ruas. O conforto dura até os garis recolherem seu bálsamo ao caminhão.

Eu iria deitar ali naquela esquina para tirar um ronco, porque catei latinhas a noite inteira. Foi quando vi esse sofá aqui e resolvi dormir nele confessa o aposentado Vanir de Souza, 66, que foi acordado no por um repórter em busca de informações. Ossos do ofício.

A princípio contrariado, o catador de latinhas admitiu que, volta e meia, encontra sofás pelas ruas. Mas surpreendeu ao dizer que a maioria não está à sua altura.

Alguns têm furos, as molas espetam a gente. Outros, a chuva molha analisa. Mas é melhor que dormir no chão.