Cordão da Bola Preta comemora 91 anos de samba
Manuela Andreoni, Jornal do Brasil
RIO - Em 31 de dezembro de 1918, um grupo de 18 foliões dissidentes do tradicional Clube Democráticos poderia até imaginar que a fundação do Cordão da Bola Preta causaria grande balbúrdia pelas ruas da cidade. Certo é, contudo, que eles jamais fariam ideia de que a iniciativa sobreviveria cerca de um século depois. Eles não estão mais aqui para ver, mas, o grupo liderado por um líder de alcunha Kverinha completa quinta-feira 91 anos, com a responsabilidade de ser o Quartel General do carnaval carioca e de arrastar cerca de 500 mil seguidores a cada desfile na Cinelândia.
Nos últimos meses o Cordão chorou bastante e hoje, finalmente, consegue mamar: comemora o aniversário com grande festa em sua nova sede na Rua da Relação, número 3, no Centro, inaugurada dia 18 de novembro em um prédio vazio da Riotrilhos.
No aniversário do ano passado, a festa foi abalada pelos problemas financeiros que levaram à perda da sede histórica na Rua Treze de Maio. A dívida de R$ 2 milhões resultou na desapropriação do imóvel e ainda segue negociada com os governos municipal, estadual e federal.
Esperamos estar sem dívidas quando completarmos o centenário explica o presidente de clube, o aposentado Pedro Ernesto Araújo Marinho, que trabalha voluntariamente para a congregação carnavalesca.
Hoje, além do Cordão da Bola Preta existe o Centro Cultural do Cordão da Bola Preta. Foi criado porque o bloco não tinha capacidade jurídica para assumir o novo prédio, em consequência das dívidas. Conta com 30 sócios contribuintes, contra os 360 do cordão original, que não contribuem, mas também ajudam na consolidação do Centro Cultural.
Quando perdemos a sede histórica, fiquei com medo... Já vimos muitas instituições desaparecerem assim. Quando conseguimos o novo imóvel, foi uma alegria indescritível conta o presidente.
Obras não estão concluídas
Na antiga sede ainda funciona a administração. São quatro salas que até agora não foram leiloadas e devem permanecer ocupadas enquanto o centro cultural não fica pronto o que deve acontecer até o segundo semestre de 2010.
A primeira fase da obra está pronta, mas não temos dinheiro para fazer tudo de uma vez. No dia 30 será o primeiro evento comercial da nova sede e esperamos ficar mais tranquilos a partir de então. É resultado de trabalho, luta e empenho. Temos que sonhar, ter um objetivo, mas não adianta fazer uma administração apenas com o coração explica Pedro Ernesto Araújo Marinho, que espera comemorar o 91º aniversário a primeira festa do Bola Preta no carnaval 2010 com a lotação máxima da casa: 500 animados foliões.
Baile infantil de volta
A novidade do ano que vem é a volta do bloco infantil, que há 20 anos não segura a chupeta.
Esperamos aproximar a criançada do Cordão da Bola Preta, o que é fundamental para a sobrevivência da instituição avalia o presidente do Bola.
Para Vanessa Damasco, coordenadora do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, o envolvimento familiar é o que mais incentiva os jovens a participarem do carnaval carioca.
Os jovens precisam participar desse movimento, já que o Cordão passa de geração para geração.
Vanessa conta que o bloco participa de todas as ações do concurso como um grande incentivador.
Quem preserva a tradição são os blocos que estão na rua e o Bola Preta é uma inspiração muito forte. Nós vemos os novos grupos com uma fusão de ritmos tradicionais e contemporâneos, como o Bangalafumenga e o Rio Maracatu, que sempre resgatam esses elementos.
Não precisa resgatar, a tradição está mais do que mantida na figura de José Quintanilha, o maestro da banda do Bola Preta. Do alto de seus 67 anos, ele se orgulha de ter passado 35 deles no comando da bateria do bloco mais antigo do Rio.
- O Bola Preta é minha segunda família. Com a nova sede, temos certeza: a alegria continua.
Do deboche ao estado à utilidade pública
No choque de ordem de 1918, a lei dizia: os grupos e cordões (blocos) que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei . Foi a voz dissonante, no entanto, que fez história.
O Cordão da Bola Preta surgiu de uma confraternização entre amigos, comandados pelo primeiro Xerife Bola, Álvaro de Oliveira ou Kveirinha no Bar Nacional, na Galeria Cruzeiro, atualmente conhecido como Edifício Avenida Central. Decididos de burlar a lei, alugaram a sede do Clube dos Políticos, na Rua do Passeio, onde, no Réveillon de 1918, consumaram o deboche com uma grande festa que deu origem ao bloco.
O reconhecimento tardou, mas não falhou. Em 1950, o Bola Preta recebeu o título de Utilidade Pública, concedido pelos relevantes serviços prestados à MPB e ao Carnaval . Já em 2003, foi elevado a Patrimônio Cultural Carioca. No ano de 2004, o governo federal concedeu-lhe a Medalha da Ordem do Mérito Cultural.
Surgido de uma dissidência, o Bola Preta virou consenso na cidade e hoje faz especialistas, como o musicólogo Ricardo Cravo Albim, um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira, se curvarem.
O Bola Preta é a única grande tradição do carnaval carioca que ainda arrasta multidões. Sempre prestarei homenagens a ele sintetizou
Lugar quente é aqui!
>> Festa do 91º aniversário do Cordão da Bola Preta
O evento terá uma apresentação da Banda do Bola Preta, formada por 26 músicos regidos pelo maestro Quintanilha, e é a abertura do carnaval 2010, como manda a tradição. >> Centro Cultural Cordão da Bola Preta, Rua da Relação, 3, Lapa (2240-8049). 4ª, das 22h às 2h. R$ 15. Capacidade: 500 pessoas.
