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Relato de um dependente químico:

Por

Fernanda Malta, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Estou aprendendo a lidar com sentimentos. Minha única forma de lidar com a emoção era através da droga. Agora, nunca estive tão perto de Deus. Não sei como vai ser o meu dia hoje, nem de amanhã. Mas, espero que neste fim de ano possa estar com a minha família. Nos últimos natais, eu estive fisicamente, mas nunca foi divertido. Ano passado, estourei o meu carro, quase morri.

Aos 20 e poucos anos, já havia experimentado maconha mas não curti muito a onda. Meus amigos então duvidaram que eu experimentasse cocaína. Me senti desafiado e fui. As primeiras viagens eram demais, não precisava mais lidar com sentimento algum. Qualquer programa era desculpa para cheirar. Me casei, mas a minha mulher nem sempre reparava que eu estava doidão.

Quando meu filho nasceu, há dois anos, a minha doença começou a ficar mais perceptível, já que eu não estava presente nunca. Minha mulher me deu um ultimato: se eu não largasse a droga, ela me largaria. Eu tentei, fiquei poucos meses sem cocaína, mas o vício é um coisa horrível. O cara que me vendia não se conformou com a minha desistência e foi atrás de mim na porta da faculdade. Parou a moto ao lado do meu carro e soltou um saquinho cheio de pó no meu colo. Fiquei revoltado, disse que não queria mais aquilo, e tentei limpar todo o pó que estava no banco do motorista. Foi só passar a mão na língua para tentar limpar que voltei a sentir aquele gosto. Foi o bastante. Voltei a ser consumidor. Mas não com este traficante, que me usou. Subia o morro para procurar o melhor pó, passava sete dias acordado e dois inteiros dormindo. Minha mulher me largou, não via mais meus filhos.

Neste um ano e meio que vivi drogado, passei por três internações. Nenhuma que durasse mais de dois meses. Até que, em um desses dias que passariam em branco, porque dormiria a tarde inteira, minha irmã me levou à força para a clínica. Estou aqui há três meses. Hoje, estou há 69 dias sem fumar, o que para mim é uma alegria maior do que estar sem usar drogas.

D. , 40 anos

O tempo é cruel. Não volta

Sempre digo que quem é viciado, sofre da doença do ainda. Se você ainda não roubou, vai roubar; se não se prostituiu, vai acabar se vendendo; e, se ainda não foi preso, com certeza, será. A pessoa que tem compulsão vai sofrer esse desvio em todas as áreas da vida. Mesmo limpo há seis anos, eu não posso ter telefone de conta porque vou estrapolar.

Eu comecei a me drogar dentro da escola. Tinha 13 anos e cheirava oito vidros de benzina por dia. Aos 15, tomei álcool pela primeira vez. No início, só bebia em aniversários. Depois, Réveillons, shows, até que virou rotina. Em uma noite, começava com cerveja e ia até o álcool puro. Tinha vezes que nem olhava o que havia dentro do copo. Já cheguei a beber cerveja com ponta de cigarro dentro. Daí para a maconha foi um passo bem curto. As pessoas falam que maconha não vicia. Mas, quando você começa a usar, usa uma vez, e quando vê, acorda e dorme para fumar. Gastava todo o dinheiro que tinha para comprar mais. Mesmo assim, achava que não tinha problema. Em menos de um ano, passei a usar ecstasy e ácido, além de maconha e álcool.

No dia seis de dezembro de 2003, comecei a beber às 9h e fui até às 22h. Tive um surto e comecei a bater com a cara na parede. Quis me jogar da janela, mas uma pessoa me deu um sossega leão e me apagou. No dia seguinte, falei para a minha mãe: ou você me interna ou você me enterra . Já estava com o rosto desfigurado, magro, horrível.

A melhor coisa que fiz foi entrar na clínica. Costumo falar que se você não sentir uma dor na alma, é porque ainda acha que pode tudo. Vou aproveitar o momento de fim de ano e dedicar o mês de dezembro para dar depoimentos em clínicas de dependentes químicos. Sei que minhas palavras não vão mudar as ideias dos garotos que já estão anestesiados pela droga. Mas sei que esse momento de festividades é o mais complicado na vida dos jovens, que sabem que não seguram a onda sozinhos. Eu passei 18 anos me drogando, não são seis que vão apagar todo o mal que fiz. O tempo é cruel, ele não volta.

E. , 36 anos