Eduardo Paes está pronto para a grande maratona esportiva

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Fabio Grijó, Flávia Salme e Flávio Dilascio, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Embalado pela Olimpíada de 2016, o prefeito Eduardo Paes começou a andar de bicicleta, duas vezes por semana, a fim de ganhar fôlego (e perder peso) para encarar os desafios de administrar a cidade e preparar a recepção dos Jogos. Com dívidas de R$ 8 bilhões com a União, que deixam a prefeitura sem nenhuma capacidade de contrair novos empréstimos, ele conta com o Banco Mundial e a iniciativa privada para tirar as promessas de campanha e olímpicas do papel. Mas, em vez de problemas, Paes acredita que as competições trarão ótimos negócios.

Em 2011, o Rio vai sediar os Jogos Militares Internacionais. Em 2013, a Copa das Confederações. No ano seguinte, é a vez de a cidade receber jogos da Copa do Mundo. O senhor quer atingir a marca de prefeito mais esportista do Brasil?

Esses eventos todos são grandes ações que podem impulsionar as atividades econômicas da cidade. Enriquecer o município por meio de atividades esportivas não poderia ser melhor. Aliás, é literalmente saudável. Não vejo só desafios, vejo oportunidades de negócios. Mas, além disso, acho que estou virando esportista, também. Comecei a andar de bicicleta duas vezes por semana. Tenho que perder peso. Engordei muito desde a campanha para a prefeitura e até hoje não voltei à forma.

A prefeitura deve R$ 8 bilhões à União. Qual a capacidade de endividamento do município e como investir nos eventos?

A capacidade de endividamento, hoje, não existe. Só podemos pegar novos recursos para programas que já estão em andamento, como Favela-Bairro, por exemplo. Mas fazemos um esforço grande para resolver isso. Negociamos com o Banco Mundial (Bird) um empréstimo que será usado para amortizar a nossa dívida com a União em 20%. Com isso, os juros anuais sobre o débito caem de 9% para 6% (além do IGP-DI). Se conseguirmos esse empréstimo, aumentamos enormemente a capacidade de investimento da prefeitura. Algo em torno de R$ 400 a R$ 450 milhões por ano. Essa é uma operação importante que foi aprovada, há uma semana, pela Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex), do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Depois do anúncio de que receberíamos a Olimpíada, essa foi a melhor notícia que o Rio poderia ter. (Segundo a Secretaria Municipal de Fazenda, a cúpula do Bird se reúne dia 15 de novembro para decidir. O governo estima que a confirmação do pedido saia em dezembro)

Se o pedido for aceito, os R$ 450 milhões anuais de investimentos garantem a preparação da cidade para 2016?

Esses recursos não são suficientes para pagar a conta da Olímpiada. É fundamental a participação dos três níveis de governo, principalmente, do governo federal. Jamais teríamos bancado a candidatura sem o compromisso claro do governo federal, os Jogos são importantes para o Brasil também. A Olimpíada de 2016 será fantástica para história do Rio, mas a vitória é brasileira.

A prefeitura conta desde já com recursos da iniciativa privada? Na terça-feira, o JB antecipou que a Ligação C (Jacarepa guá-Deodoro) será fruto de uma, mediante a cobrança de pedágio. Já está fechada?

Sim, o pedágio na Ligação C já é certo. Claro que haverá aporte de recursos públicos, mas é possível contar com a entrada de dinheiro privado, há várias possibilidades de parceria público-privada.

A prefeitura já recebeu alguma sinalização do setor privado?

Acho que há uma empolgação muito grande do setor privado. Mas estamos nos passos iniciais do planejamento, da organização. O COI nos dá seis meses para montar a institucionalidade do projeto. A imprensa exige seis dias. Nós vamos ficar com o prazo do COI (risos).

Mas o senhor já anunciou alguns projetos que serão realizados, como o anel viário da Barra da Tijuca. Quando começam as obras?

Queremos licitar algumas obras até dezembro, como a Ligação C, e iniciar outras no ano que vem. Essa via vai ser uma espécie de Linha Amarela da Zona Oeste. O corredor T5 (que vai ligar a Barra à Penha) será na verdade uma grande transsuburbana. Vai atravessar todo o subúrbio da cidade. Para citar exemplos, o traçado vai cortar os bairros da Taquara, Praça Seca, Tanque, Campinho, Madureira, Vicente de Carvalho até chegar à Penha. Ainda pensamos em fazer uma ligação da Zona Oeste em direção ao T5 por meio de BRT (ônibus de trânsito rápido, em português). Mas tudo isso tem que ser feito com calma. A Barra vai concentrar muitas vias importantes.

E como serão feitas essas obras, será necessário abrir novas vias pela cidade?

Não. Vamos precisar fazer muitas desapropriações. Em termos de obras, será preciso duplicar muitas ruas e avenidas, para criar os corredores de ônibus.

O senhor acaba de dizer que a Ligação C será executada em parceria com a iniciativa privada. E para esse projeto do T5, há dinheiro?

Posso afirmar que a prefeitura tem condições de fazer tudo o que foi definido como sua responsabilidade.

Como garantir a sustentabilidade dos equipamentos esportivos, para que a prefeitura não tenha que pagar pela manutenção deles no futuro?

Essa deve ser uma preocupação na hora de montar o legado esportivo. Avaliamos com seriedade os equipamentos que iremos edificar. Algumas atividades esportivas precisam, obrigatoriamente, de subsídios. Mas é o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) que tem que cuidar disso. Outras, porém, têm plena sustentabilidade. Estádio de futebol, por exemplo, se sustenta. O Engenhão foi concedido ao Botafogo. Para mim, um ótimo negócio. Foi muito positiva a negociação da Arena de Jacarepaguá com o HSBC. A Marina é usada para shows, então, ela paga a conta.

Qual será o percentual de participação da prefeitura, estado e governo federal na Olimpíada? Uma das maiores críticas à realização do Pan-2007 foi o fato de a prefeitura ter arcado com a maior parte dos recursos. O orçamento estourou.

No Pan, a cidade do Rio estava isolada politicamente. O prefeito (Cesar Maia) queria fazer evento sozinho, para que o mérito fosse só da prefeitura. Agora, é justamente o oposto. A cidade tem um prefeito que não está nem perto de estar isolado politicamente e que tudo o que não quer é fazer uma Olimpíada sozinho, jamais conseguiria. A cidade é protagonista, o que faz com que a prefeitura seja protagonista, mas é fundamental que tenha aporte de recursos públicos estaduais e federais.

O senhor diz que a organização de 2016 será oposta à do Cesar Maia no Pan. Mas manteve no seu governo o secretário Ruy Cezar Miranda Reis, braço direito do ex-prefeito nos Jogos de 2007. O que vai mudar?

Ele trabalhou na organização do Pan com muita competência. O que muda é a postura política do mandatário político. Nós, desde o início, envolvemos o (presidente) Lula em tudo. O COB vai comandar todo o processo, e os governos estadual e municipal darão o suporte. Há uma diferença bastante grande entre o que se pretendeu no passado e o que se pretende agora.

Na quinta-feira, o senhor lançou o site Transparência Olímpica, com a promessa de divulgar gastos e fixar prazos para as obras. O senhor já admitiu que o orçamento pode estourar. Se acontecer, também será divulgado?

O que eu disse é que o orçamento pode ser maior do que o anunciado, o que não quer dizer que vai estourar. Se a gente tiver condições de fazer, por exemplo, em vez de uma linha de metrô, oito, não significará estouro no orçamento. Prefiro chamar de investimento na cidade. Se a gente fizer mais coisas, vai custar mais caro. Se custar mais porque fez mais, não é problema. O problema é quando custa mais caro e você faz menos, aí fica esquisito.

Esses investimentos vão depender da participação da iniciativa privada?

Não. Tudo isso depende de como as coisas vão acontecer. Quanto mais a gente puder ganhar para a cidade, melhor. Essa é a meta. O grande desafio da prefeitura, agora, identificar como a gente pode fazer para para trazer mais obras de infraestrutura para o Rio.

No ano que vem haverá eleição. As pesquisas indicam bom desempenho do governador de São Paulo, José Serra. O senhor trabalha com as chances de mudança no governo federal?

A minha candidata é a ministra Dilma. Mas a Olimpiada é um projeto do Brasil e dos brasileiros. Acho que existe um compromisso claro de todos os candidatos os Jogos, seja o Serra (PSDB), a Marina Silva (PV), o Ciro Gomes (PSB) ou quem mais concorrer. Aquele que disser que está fora dos preparativos de 2016 vai ter dificuldade para ganhar voto. Mas, independentemente de quem for eleito para qualquer coisa, é minha obrigação manter a melhor relação do mundo. É preciso parar de usar isso aqui (a prefeitura) como palanque político de lutas que não digam respeito aos interesses da cidade.

Que planos o senhor faz para aumentar a participação do Brasil no quadro de medalhas em 2016? Vai usar as vilas olímpicas para a formar atletas?

Eu entendo o papel da prefeitura nessa questão é o de viabilizar a democratização da prática esportiva. O papel do alto rendimento, da identificação de jovens que possam disputar competições, é muito mais um trabalho do COB e do Ministério dos Esportes.

O que passou pela cabeça do senhor quando o Rio de Janeiro foi anunciado como cidade-sede da Olimpíada?

Foi um sentimento muito forte. Certamente, o nascimento dos meus dois filhos foi a maior emoção da minha vida. Mal comprando, posso dizer que a Olimpíada é como um filho que pari na função pública. Dei um salto olímpico que nunca mais vou repetir. Fiquei todo dolorido no dia seguinte, cheguei no Rio com muitas dores no corpo. No domingo, após a decisão, me senti um caco. Nunca mais eu dou na minha vida aquele salto.