Turistas adotam cidade, mas reclamam da sujeira e do trânsito

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Fernanda Dannemann *, Jornal do Brasil

RIO - Pronto, ganhamos. Em 2016, o Rio será o centro do mundo, com a primeira Olimpíada brasileira. Estrangeiros vão surgir de todos os lados, mas o que pensam da cidade os que já vivem aqui? Começamos perguntando a alguns deles o que temos de melhor, e a resposta pouco variou: a praia. Unanimidade entre os forasteiros que, segundo o francês Roland Villard, sonham em nadar nas águas cariocas, nossa orla é campeã internacional na preferência dos visitantes. Morador da Atlântica há 12 anos, Roland, chef do Le Pré Catelan, do Sofitel, diz que não troca o Rio nem por Paris.

A imagem de Copacabana é muito forte lá fora empolga-se, de frente para as areias do Posto Seis.

Foi justamente por causa do mar que a neozelandesa Katrina Millar, 30, aceitou, há cinco anos, o convite do namorado Mauro gaúcho para morar no Rio.

Quando ele falou das ondas da Macumba, eu disse sim conta Katrina, que, com Mauro, abriu uma escola de surf de frente para a praia que a conquistou.

Também é na praia que os argentinos Angel e Nídia Rey, há dois anos na capital carioca, gostam de passar o tempo:

Caminhamos 12 quilômetros na beira d'água na Barra.

Mas nem tudo é azul no nosso litoral, e quem se queixa é a mexicana Maybe Corral, 28 anos, que há um ano vive no Leblon.

Vou à praia mesmo que seja só para olhar. Mas o esgoto que polui a água e cria línguas negras dá um aspecto ruim à cidade opina. Os cariocas deveriam cuidar disso.

Cartão postal do Brasil, o Rio é tratado pela mídia de muitos países como a Faixa de Gaza ocidental. Felizmente, os estrangeiros que aqui se aventuram logo veem que não é bem assim.

Eu achava que as balas voavam pela cidade toda confessa a boliviana Guingui Cuellar, 30, há pouco mais de um ano no Rio. Mas os motoristas de ônibus é que voam.

Os motoristas dirigem como loucos concorda o americano Ezra Spira-Cohen, 24 anos. Apaixonado pela cidade, esse professor de inglês diz que viver aqui lhe abriu os olhos para a desigualdade social.

É dificil não considerar isso quando penso no Rio, que é uma cidade de contrastes extremos, mas também de paixão diz. Mas é a cidade mais linda do mundo.

Frequentador da Lapa e do Leme, Ezra também adora passear pela Cinelândia.

Já o colombiano Felipe Henao, 31, há pouco mais de um ano no Rio, tem outra opinião:

Esta é uma das poucas cidades no mundo em que não se pode escolher o Centro para um passeio, porque é feio, sujo e mal-conservado. E os homens fazem xixi na rua constata, acrescentando que prefere passear por Ipanema.

Felipe, botafoguense, sempre vai ao Maracanã. No zero a zero entre Brasil e Colômbia, não sofreu com a torcida da casa.

Achei engraçado que os cariocas xingavam seu próprio time diverte-se. Aqui, esquecem logo as vitórias e os ídolos: hoje o Robinho é um gênio; amanhã, um burro.

Felipe adorou o Carnaval, com direito a desfile na Sapucaí, e as cariocas.

O problema é que elas gostam demais de compromisso.

E, por falar em zero a zero, Guingui, a boliviana, acha o povo simpático, mas lamenta que os rapazes exagerem.

Já chegam botando a mão e, se deixarmos, vão beijando.

Simpatia à parte, aos olhos estrangeiros a propagada violência no Rio não é tanta quanto parece.

Eu pensava que a cidade fosse infestada de seqüestros, roubo de carros, tiros na rua diz o colombiano Jayme Mejía. Mas ela é igual a qualquer metrópole.

O engenheiro Joh n Gonzáles, 30, há cerca de um ano no Rio, concorda.

A Venezuela é muito mais perigosa. Lá, fui assaltado três vezes. Aqui, nunca.

Acostumada a correr na praia tarde da noite, a argentina Mariela Pellegrini também não tem medo de ladrão.

Espero é n ão encontrar barata no ônibus diz ela, que usa o metrô.

A amiga Guingui queixa-se que os cariocas não respeitam filas, seja na condução ou no cinema.

As mazelas cariocas também são unanimidade.

Tive até problemas na coluna por ficar três horas por dia em engarrafamentos entre o Centro e a Barra, onde moro afirma Jayme Mejía.

Para Mariela Pellegrini, que vive no Leblon, a sujeira é pior. As cariocas usam salto plataforma para manter os pés longe do chão e não sujar os dedos. Mais sujeira que no Rio, só vi em Luanda diz.

E a neozelandesa Katrina Millar lamenta o lixo nas praias e a pobreza: É triste ver tanta gente sem casa.

* especial para o JB