Moradores do condomínio onde houve deslizamento convivem com o medo
Marcelo Migliaccio, Jornal do Brasil
RIO - Ontem fez um mês que 18 mil toneladas de pedra rolaram sobre um condomínio na Rua Rua Engenheiro Gama Lobo, em Vila Isabel (Zona Norte). Três pessoas ficaram feridas, e o aposentado Reinaldo Ferreira Guimarães, 82, morreu no hospital, após ser atingido na sala de casa por um imenso bloco. Enquanto técnicos da Geo-Rio realizam um estudo para determinar as causas do acidente e o que será feito para conter a encosta, moradores de 16 das 81 casas convivem com o transtorno em sua rotina e com o medo de que ocorra um novo deslizamento.
Há um mês estamos acampados na casa da minha sogra, dormindo em colchonetes lamenta a administradora Marcia Guyt, ao lado da filha Gabriela, 9. Agora, eu e meu marido vamos ter que alugar um apartamento e não sabemos por quanto tempo. Talvez tenhamos que pagar multa se voltarmos para casa antes do fim do contrato, que no mínimo é de 30 meses.
Marcia, mãe também de um bebê um ano, diz que não perdeu o filho mais novo por uma providência divina, já que o menino sempre brincava na área atingida naquele horário e só não estava lá no dia do acidente porque a avó foi com ele levar Gabriela ao colégio.
Eles passaram por ali de carro15 minutos antes de as pedras caírem.
Muitos moradores, porém, contrariaram o laudo de interdição da Defesa Civil e continuam dormindo em suas casas e convivendo com o medo, como Narli Rainha (veja texto na página ao lado).
Minha família poderia ficar também, mas como temos duas crianças, achamos melhor não arriscar conta Marcia.
O subsíndico, Otávio Viana, cuja casa não está numa área de risco, diz esperar que a prefeitura continue dando apoio.
Depois do estudo da Geo-Rio, deverá haver uma audiência pública com os moradores, e aí vamos ver se eles realmente farão o que tem que ser feito. Infelizmente, nossa ansiedade é maior que o ritmo das providências. Por nós, já teriam tirado todas essas pedras e iniciado a contenção da encosta.
A síndica, Jeanete Nogueira, entretanto, acha que tudo está muito bem no condomínio.
Só uma minoria teve que sair de casa, porque tem criança. Ninguém aqui tem receio que aconteça de novo, a pedreira é maciça, isso é intriga da oposição.
Quando o Jornal do Brasil estava no condomínio para esta reportagem, porém, começou a minar uma grande quantidade de água de uma das fendas da pedreira. Otávio e outros moradores ficaram assustados.
Isso não tinha acontecido até agora, vou fotografar e mostrar aos técnicos da Geo-Rio.
Por causa do deslizamento, três carros foram destruídos e cinco casas permanecem inabitáveis, até com grandes pedras em seu interior. Seus habitantes também estão morando improvisadamente com parentes.
Otávio lembra os momentos de terror no dia em que as pedras rolaram.
Eu estava almoçando e ouvi um barulho que parecia o de um caminhão batendo. Foi aumentando e quando saí de casa era tudo poeira. Aí corri para, com outras pessoas, retirar moradores que ficaram presos nas suas casas.
A pedreira estava desativada havia 50 anos e moradores suspeitam que a erosão, combinada com a construção de moradias populares no alto do morro pode ter causado o deslizamento.
Também foi usada muita dinamite ali e há várias fendas por onde a água da chuva entra especula Otávio.
