Tradicional no Rio, Confeitaria Colombo comemora 114 anos
Janaína Linhares, Jornal do Brasil
RIO - As mulheres trajadas com vestidos rendados e cabelos cheios de laquê já não estão mais lá. Os homens de chapéu de palha também não. Mas o som do piano, os espelhos importados da Bélgica e os mais tradicionais doces e salgados ainda fazem da Confeitaria Colombo um recanto de tradição no Centro da cidade. Para quem não viveu a época áurea da confeitaria, que em setembro fez 114 anos, o fato de poder estar onde personalidades como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Carmem Miranda estiveram já é uma forma de reviver a história de um estabelecimento que se confunde com a do Rio.
Fundada em 17 de setembro de 1894 pelos portugueses Joaquim Borges de Meirelles e Manoel José Lebrão, inicialmente a Confeitaria Colombo não passava de um armazém de secos e molhados sem glamour nem fama. Com o tempo, as reformas foram transformando o lugar em um café, mas foi a presença de Olavo Bilac e Machado de Assis junto aos seus 40 companheiros imortais, que passaram a usar o lugar para as reuniões da Academia Brasileira de Letras, que transformou a confeitaria em um dos pontos mais sofisticados da cidade.
Em seguida vieram as festas, banquetes e chás, todos freqüentados pela mais alta cúpula do Rio. Hoje, dois antigos funcionários representam a memória viva do lugar.
Cheguei de Portugal com 17 anos. Logo comecei a trabalhar na Colombo e em pouco tempo servia pessoas como Gaspar Dutra, Fernanda Montenegro e Bibi Ferreira relembrou o gerente da casa, José Pereira, há 50 anos sem nunca ter trabalhado em outro lugar. Nunca convivi com autoridades, quando me vi atendendo a estas pessoas me senti gente de verdade.
Outro símbolo da Colombo é o garçom Orlando Duque. Depois de ter atendido as mesas 23 e 38 exclusivas dos presidentes Kubitschek e Vargas hoje ele se alegra ao ver que já passou por pelo menos cinco gerações de clientes.
Em dezembro do ano passado um desembargador federal esteve aqui e me disse que eu já havia servido ao seu pai, a ele, a seus filhos, seus netos e, naquele momento, serviria a seu bisneto contou o garçom de 71 anos, há 56 na casa.
Memória preservada
Para quem não viveu na Colombo das grandes personalidades, uma forma de se aproximar um pouco mais do que já aconteceu no confeitaria é visitar o espaço memória, uma espécie de museu que fica no segundo andar do prédio. Cercado por louças e taças usadas no início do século passado, além de fotos e exemplares de cardápios da época, o espaço disponibiliza para os clientes réplicas das louças e dos cardápios e aventais com o nome da confeitaria
Para relembrar o passado recente, clientes que há alguns anos freqüentam o lugar afirmam que é só entrar na casa que as lembranças vêm à tona. Apesar de reconhecer algumas diferenças, o aposentado José Carneiro, 65 anos, diz que é sempre bom visitar a confeitaria.
Apesar do entorno da confeitaria não ser mais o mesmo, já que o Centro mudou, quando estou lá dá para sentir saudade de um tempo que se foi comentou. Lembro que o pão fabricado por eles era tão bom que se comia sem recheio.
Historiador e freqüentador da confeitaria, Milton Teixeira garante que o lugar mudou, mas reconhece sua importância para o Rio.
A casa ainda tem muito do charme. Hoje não dá para se fazer um circuito com turistas e não passar por lá afirmou. São outros tempos e, hoje, ela é uma pálida lembrança do que foi, mas o mobiliário e o interior da confeitaria são fantásticos.
