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Os exilados da violência no Rio

Por

Bruna Talarico e Felipe Sáles, Jornal do Brasil

RIO - Longe dos cartões postais que fizeram a fama da Cidade Maravilhosa, migrantes que tentaram a sorte no Rio e conseguiram residência e emprego fixo estão preferindo voltar à terra natal por medo da violência. Criado para atender moradores de rua, o programa De volta à terra natal, da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), passou a ter cerca de 30% dos atendimentos destinados a exilados da guerra cotidiana da cidade.

Moradores de comunidades dominadas por milícias, como Rio das Pedras, na Zona Oeste, e por traficantes, como no Complexo do Alemão, Zona Norte, são os que mais recorrem ao programa para conseguirem fugir do Rio.

As famílias têm um medo muito grande de ter o filho morto, principalmente os pais de filhos adolescentes explica o secretário Marcelo Garcia. Os jovens têm de voltar para casa e não podem, por causa da milícia e do tráfico. São famílias desesperadas porque vivem em uma comunidade oprimida. A situação é incontrolável.

Novo fenômeno

Criado em 2004, o programa já patrocinou a passagem de 1.648 pessoas. No primeiro semestre deste ano foram 250 atendimentos, cerca de 30% deles moradores de zonas deflagradas pelas leis paralelas de traficantes e milicianos, segundo Garcia. Um fenômeno que surgiu este ano devido à violência. Hoje a SMAS fará uma reunião para discutir estratégias e estudar soluções a serem implementadas junto ao governo federal e estadual.

Um levantamento feito pelo programa revelou que, na maioria das vezes, moradores de regiões de Jacarepaguá e Santa Cruz, na Zona Oeste, e do Complexo do Alemão, na Zona Norte, são os que mais buscam ajuda. Os pedidos são de migrantes nordestinos para retornar a cidades da Bahia, Sergipe e Ceará. A violência desenfreada e a descrença com o poder público refletem, muitas vezes, o fim dos sonhos da cidade grande.

Em Santa Cruz e Rio das Pedras, por exemplo, as pessoas temem pedir proteção à polícia, porque não sabem se os policiais estão ligados à milícia conta Garcia.

Foi o que aconteceu com Flávio Leitão, 43 anos, nascido no município de Nova Russas, no Ceará. Há quatro anos, ele veio ao Rio, acompanhado da esposa e de dois filhos, confiante numa proposta que recebera para trabalhar numa chácara, onde ganharia R$ 400 por mês, além de um salário mínimo e uma cesta básica para sua mulher.

Quando chegou, Flávio descobriu que a chácara não passava de um quintal e, ao invés dos benefícios prometidos, a remuneração era de R$ 10 por dia. Flávio conseguiu outros empregos, viveu de biscates e da solidariedade de vizinhos da Favela do Batan, em Realengo então ainda dominada por traficantes de drogas, antes de ser tomada por milicianos.

Estava com medo de cuidar dos meus filhos aqui, medo deles se envolverem com coisas erradas (referindo-se ao tráfico de drogas) explicou. Quis voltar para Nova Russas porque lá tenho família e trabalho garantido na lavoura. A pobreza lá é muito diferente da cidade grande.