Religiosidade, luxo e muitosamba no pé
Unidos da Tijuca, Salgueiro e Viradouro largam na frente na primeira noite do desfile das escolas de samba do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí
A chuva estiou e em meio ao voo fantástico de emojis, bruxas, piratas e notas de dinheiro de mentirinha promovido pelas escolas de samba do Grupo Especial, Unidos da Tijuca, Salgueiro e Viradouro se destacaram, na noite de domingo, no primeiro dia de desfile da elite do carnaval carioca na Marquês de Sapucaí. Ontem, noite do segundo dia dos desfiles, a expectativa era de um duelo entre Mangueira e Portela na Avenida. O samba da primeira cita a vereadora Marielle Franco, assassinada há um ano, e é dos mais cantados em blocos de rua, contando a história do Brasil do ponto de vista de heróis populares que não figuram nos livros didáticos. O samba da Portela chegou à passarela sem a mesma popularidade, mas o enredo rendeu muitos aplausos ao homenagear Clara Nunes.
Desta vez sem atraso, coube à São Clemente abrir os trabalhos, por volta das 21h30, com o enredo "E o Samba Sambou", uma crítica às mudanças que a profissionalização do desfile impôs às agremiações, com o troca-troca de carnavalescos, intérpretes e outros profissionais, ditado pelo dinheiro, e aos camarotes organizados por empresas, que oferecem atrações musicais próprias e deixam as escolas em segundo plano. Em seguida, viriam Vila Isabel; Portela; União da Ilha do Governador; Paraíso do Tuiuti; Mangueira e Mocidade Independente de Padre Miguel.
Sétima e última escola a se apresentar na primeira noite de desfiles do Grupo Especial, já no amanhecer de segunda-feira, a Unidos da Tijuca fez uma bela apresentação discorrendo sobre o pão. A agremiação deve brigar pelo título amanhã, quando irá ocorrer a apuração. A exibição da Tijuca marcou o retorno do carnavalesco e diretor de carnaval Laíla à escola do Borel, após 24 anos na Beija-Flor durante os quais a escola da Baixada Fluminense conquistou nove títulos. Laíla divide a função de carnavalesco com seu auxiliar Fran Sérgio, que o acompanhou ao sair da Beija-Flor, e três outros componentes que já trabalhavam na Tijuca. Ex-auxiliar de Joãosinho Trinta (1933-2011), o carnavalesco se sentiu desvalorizado pela Beija-Flor e saiu mesmo após conquistar mais um título, em 2018. Acolhido pela Tijuca, na qual já havia trabalhado de 1980 a 1983, neste ano Laíla ajudou a organizar um desfile que superou em qualidade o da Beija-Flor, agora com uma comissão de cinco carnavalescos.
A Tijuca explorou bastante o significado religioso do pão, retratando a santa ceia no carro abre-alas e várias outras passagens bíblicas em alas e encenações uma das mais impactantes representou o calvário de Cristo antes de ser crucificado. Não faltaram menções ao "pão que o diabo amassou" e ao pão de Santo Antônio, que segundo a crença católica deve ser guardado para que nunca falte alimento no lar.
Também foi lembrado o significado do pão na história a política do pão e circo durante o Império Romano, a importância do produto no eclodir da Revolução Francesa (quando Maria Antonieta teria dito que, se não havia pão, o povo devia comer brioches) e em uma revolta de operárias russas.
A escola esbanjou luxo, com alegorias e fantasias muito bem acabadas, e aproveitou a iluminação natural do amanhecer, que tornou mais visíveis os detalhes. O transcorrer do desfile também foi bastante satisfatório, sem correria nem imprevistos. Ao final, componentes e o público se uniram em um coro de "é campeão".
Unidos do Viradouro
De volta à elite das escolas de samba do Rio após quatro anos na segunda divisão (da qual foi campeã em 2018), a Unidos do Viradouro foi a segunda escola a se apresentar. A escola apostou no aplaudido carnavalesco Paulo Barros, campeão em 2010, 2012, 2014 e 2017, para discorrer sobre contos infantis sob a ótica de um adulto. O fio condutor foi um adulto revisitando os livros que sua avó lhe apresentava quando criança. Daí surgiram personagens como a Branca de Neve, o Gato de Botas, Cinderela, o Soldadinho de Chumbo e o lobisomem.
A escola esbanjou luxo e empolgou o público, encantado com a teatralização e as alegorias humanas sempre usadas por Paulo Barros. O quinto carro alegórico, um cemitério em que criaturas das trevas saíam dos túmulos, foi um dos que causaram maior impacto: um Motoqueiro Fantasma, outro personagem dos livros, descia da alegoria e circulava pelo sambódromo pilotando sua moto para afastar as criaturas do mal.
Beneficiada até pela comparação com a escola anterior, o Império Serrano de fantasias simples e mal acabadas, a Viradouro deu espetáculo e é séria candidata a retornar no Desfile das Campeãs, que ocorre no próximo sábado, 9, e reúne as seis escolas mais bem colocadas nos dois dias de exibições.
Acadêmicos do Salgueiro
Quarta escola de samba a desfilar na primeira noite de exibições no Sambódromo, o Salgueiro exaltou Xangô, divindade cultuada pelas religiões de matriz africana trazidas ao Brasil pelos escravos, como o candomblé. Foi o primeiro desfile da escola da Tijuca sob a atual direção uma disputa judicial que se estendeu de maio a dezembro determinou a saída de Regina Celi e deu o comando do Salgueiro a André Vaz, candidato de oposição.
A demora na decisão parece não ter prejudicado a escola, que fez um desfile muito luxuoso e empolgante só comparável, até então, à apresentação da Viradouro de Paulo Barros , embalado por um samba que, embora difícil de cantar por conter várias expressões africanas, foi muito bem recebido pelo público. O competente carnavalesco Alex de Souza, que estreou no Salgueiro em 2018 conquistando o terceiro lugar, mais uma vez criou fantasias e alegorias luxuosas e muito bem acabadas.
Ele reclamou, porém, da falta de material no mercado brasileiro, abastecido prioritariamente por fornecedores chineses. Para não correr risco, optou mais pelo espelho, de fácil acesso, do que gostaria. "A crise não é só financeira, é de material também ", disse o carnavalesco após o desfile, demonstrando confiança na vitória apesar dos percalços.
A empolgação fez com que a escola atravessasse a avenida no limite de 1h15. Mas, para Souza, "o tempo foi justo como Xangô", brincou ele, em referência ao orixá das religiões afrobrasileiras, "justiceiro da nação nagô", como traz o samba do Salgueiro. Nessa linha de defesa de direitos, os integrantes da última ala exibiram bandeiras contra a discriminação às minorias.
Além de contar a origem africana de Xangô, o enredo mostrou seus correspondentes no catolicismo, como São Jerônimo, São João Batista e São Pedro. O desfile também fez diversas referências à Bahia, berço do sincretismo religioso no Brasil, e ao enredo apresentado pelo Salgueiro há 50 anos em 1969 a escola conquistou o quarto título de sua história com uma homenagem à Bahia, em enredo desenvolvido por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. (Com Estadão Conteúdo)
